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Degradação do centro histórico de Florianópolis provoca a falência do comércio local

O número de imóveis para alugar e vender aumenta a cada dia. Prefeitura terá reunião com o BNDES para buscar recursos para revitalizar a área, que foi o berço do comércio da capital catarinense

Michael Gonçalves
Florianópolis
11/06/2018 às 21H40

Desde a implantação do sistema integrado de transporte coletivo, em agosto de 2003, quando os ônibus deixaram o Terminal Cidade de Florianópolis e foram para o Ticen, a parte Leste do Centro Histórico está abandonado. A troca dos usuários do transporte coletivo pelo exército de pessoas em situação de rua e usuários de drogas deixou os espaços públicos degradados com sujeira e pichações, sem contar os constantes arrombamentos. O número de imóveis para alugar ou vender aumenta a cada dia. A próxima loja a fechar as portas será a tradicional Casa Leão, que funciona por mais de 40 anos no calçadão da rua João Pinto. Para o diretor de desenvolvimento da CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas) e coordenador do Núcleo do Centro Histórico, Rafael Salim José, não faltam projetos para a revitalização, “mas a prefeitura precisa colocá-los em prática”.

Calçadão da João Pinto vazio, na manhã de ontem, retrata bem a situação do Centro Histórico da Capital - Daniel Queiroz/ND
Calçadão da João Pinto vazio, na manhã de ontem, retrata bem a situação do Centro Histórico da Capital - Daniel Queiroz/ND


A rua João Pinto, por exemplo, foi a primeira região do comércio varejista da Capital. “Com a retirada das principais linhas do transporte coletivo do Terminal Cidade, o movimento da região só diminui e abriu espaço para outro tipo de clientela. São muitos pedintes e poucos clientes. Somado à insegurança que tomou conta da região, os proprietários decidiram encerrar as atividades”, lamentou a gerente de loja Mari Goulart.

Somente em dois quarteirões da João Pinto a reportagem do ND identificou oito imóveis fechados. Alguns com placas para alugar ou vender. Na rua Tiradentes, a situação não é diferente. Há 45 anos no ramo de fotografia, o comerciante Paulo José, 66 anos, da Rex Foto, recorda da época do terminal ao lado do Tribunal de Contas.

Na época, as ruas do Centro Histórico Leste eram as mais valorizadas do município. “As pessoas desciam do terminal e durante a caminhada consumiam em lanchonetes, lojas e no comércio em geral. Acredito que só revitalizar a área não vai adiantar, porque precisaríamos ter o terminal de volta ou algum órgão público na região para atrair mais gente”, sugeriu o comerciante.

Mari é gerente da loja que vai fechar as portas - Daniel Queiroz/ND
Mari é gerente da loja que vai fechar as portas - Daniel Queiroz/ND


Clientes reclamam dos pedintes e flanelinhas

Há 22 anos na rua Nunes Machado, a gerente da loja Palácio das Festas, Luciane Bitencourt de Arruda, 42, presenciou a decadência da região. O fechamento da Escola Antonieta de Barros, a mudança do terminal e a transferência de uma unidade da Udesc contribuiram para o abandono do entorno.

Luciane contou que as reclamações dos clientes são diárias. “Continuamos apenas com as clientes mais antigas da loja, porque temos dificuldades para atrair uma clientela nova para a região. Como investimos em divulgação na rede social, recebemos muitas reclamações das clientes quando chegam aqui. Quer ver quando estacionam em frente ao Museu da Escola Catarinense, porque são muitos os flanelinhas”, lamentou. A gerente informou que a proprietária da loja já pensou em mudar de endereço, mas ainda não fez a mudanã porque o imóvel é próprio.

Praça 15 virou banheiro e dormitório

Uma praça deveria ser um espaço de convivência e de recreação para moradores e visitantes de uma cidade. Infelizmente, a praça 15 de Novembro virou dormitório e banheiro para as pessoas em situação de rua. O problema é que o local é um ponto turístico de Florianópolis, ao lado da Catedral Metropolitana.

Jardineiro da praça 15, João Antônio relata que moradores de rua usam as árvores como banheiro - Daniel Queiroz/ND
Jardineiro da praça 15, João Antônio relata que moradores de rua usam as árvores como banheiro - Daniel Queiroz/ND


Com uma banca de revistas há 22 anos na praça 15, o jornaleiro Adriano Silva, 44 anos, diz o que incomoda. “Preciso lavar a entrada da banca todos os dias, porque virou um banheiro público. O mau cheiro de urina é diário, sem falar nas fezes que também estão espalhadas pela praça. Acredito que a praça deveria ter um vigilante”, afirmou.

O coreto é ocupado todas as noites. Ao invés de uma apresentação cultural, as pessoas em situação de rua utilizam o espaço para dormir. O local também serve como depósito de roupas, além de varal para calçados. O jardineiro que faz a manutenção da praça, João Antônio Souza, 33, relatou como é a convivência com estas pessoas. “Meu trabalho é manter os canteiros em ordem, mas o problema é que algumas árvores são utilizadas como banheiro, como a localizada atrás de uma banca de revistas. Eles também guardam roupas nas árvores e quando tentei retirar arrumei confusão. Em uma oportunidade cheguei a encontrar droga escondida e joguei no lixo”, disse.

O mecânico gaúcho Erico Munhoz do Nascimento, 59, visita Florianópolis com frequência e gosta de descansar na praça. “Os moradores de rua são os mais bem tratados do Brasil e, por isso, eles também são os mais tranquilos. Eles têm comida e roupas sem fazer esforço e passam o dia na praça”, ironizou.

Adriano precisa lavar a frente da banca diariamente - Daniel Queiroz/ND
Adriano precisa lavar a frente da banca diariamente - Daniel Queiroz/ND


Calçadão da João Pinto parece um território fantasma

O diretor de desenvolvimento da CDL, coordenador do Núcleo do Centro Histórico e empresário, Rafael Salim José, lembrou que a rua João Pinto, por exemplo, foi o berço do comércio em Florianópolis. Hoje, o calçadão, que não é respeitado pelos veículos, virou um território fantasma.

A cada quatro comércios abertos, existe um fechado. “A situação de abandono com o Centro Histórico Leste desestimula os empresários. Existem projetos de revitalização para a região, o que falta é a prefeitura colocá-los em prática. Aqui sempre foi um espaço nobre, com grandes lojas do comércio varejistas, mas hoje as portas fechadas são as cenas mais comuns”, afirmou.

O calçadão da João Pinto é formado por paralelepípedos, que são irregulares. Segundo Salim José, isso é mais um problema para o comércio. “Estamos em uma região degradada, com aspecto sujo, onde as pessoas só querem passar o mais rápido possível. Conversando com alguns clientes, reparei que a maioria passa de cabeça baixa olhando para o piso desnivelado e, assim, ninguém presta atenção no comércio”, constatou. O empresário informou que no início de setembro vai acontecerá a segunda edição do mutirão de limpeza, na qual os empresários limpam as pichações e tentam dar um aspecto melhor para a região.

Prefeitura busca recursos no BNDES

O chefe de gabinete da Prefeitura de Florianópolis, Bruno Oliveira, informou que a prefeitura trabalha para atender as demandas da população e dos comerciantes do Centro Histórico. Ele destacou a reforma da Casa de Câmara e Cadeia, o projeto de revitalização do Largo da Alfândega e as ações com as pessoas em situação de rua. Existem integrantes na administração municipal que defendem o fechamento da praça 15 de Novembro durante a madrugada.

“Tivemos uma reunião na semana passada com órgãos e entidades para discutir ações para as pessoas em situação de rua, que provocam uma sensação de insegurança. Também há investimentos na restauração da Casa de Câmara e Cadeia e nas próximas semanas o prefeito Gean Loureiro terá uma reunião no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] para buscar recursos para revitalizar o Centro Histórico. A parte mais cara do projeto é o aterramento das fiações elétricas. Também há quem defenda o fechamento da praça 15 em determinados horários, mas isso depende de um debate mais amplo com a população”, disse. Oliveira informou que o objetivo da prefeitura é atrair o maior número de pessoas para o Centro Histórico, por meio de atrações culturais e de outros eventos.    

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