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Guerra aos canudos: marcas de Florianópolis oferecem alternativas ao plástico

Consciência ambiental e legislação promovem mudanças que estimulam empresas a criarem e usarem produtos de reuso e que não contaminam o ambiente

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
02/12/2018 às 15H20
Paula e Daniel desenvolveram canudos de inox que são um sucesso - Divulgação/ND
Paula e Daniel desenvolveram canudos de inox que são um sucesso - Divulgação/ND


O canudo arrancado do nariz da tartaruga. Sangue. Dor. Culpa. O vídeo dos oceanógrafos da universidade A&M do Texas valeu mais que mil palavras. Viralizou, transformou os canudinhos em símbolos da irresponsabilidade ambiental, fomentou leis para bani-los em diversas cidades brasileiras, catapultou ações e discussões e jogou os holofotes sob as marcas com consciência ecológica. 

Definitivamente, Paula Franzoni, 30 anos, e o namorado Daniel Midões, 37 anos, mudaram o arraigado hábito de utilizarem canudos como consequência do vídeo. Não queriam ser os responsáveis pelo sofrimento do animal. Pesquisaram na internet, então, soluções para substituir o objeto de plástico. Encontraram opções de bambu e vidro, mas não se satisfizeram. Da insatisfação nasceu a ideia do negócio.

Com três meses de pesquisa, a marca Reuse, de canudos de inox personalizados, foi lançada em agosto.  Atualmente tem 25 pontos de vendas em Florianópolis, além de pontos em Balneário Camboriú, Curitiba, São Paulo, Santos e Belém.

“A aceitação foi muita rápida. Percebemos que as pessoas desejavam mudar o hábito, só faltava uma empresa que oferecesse soluções simples para a readaptação”, disse Paula. 

A Reuse oferece canudos com gravações no metal. A criatividade é o limite, pode ser um nome, um símbolo, uma marca – e também cases artesanais, para vários estilos. Para que o objeto possa ser carregado higienicamente na bolsa ou na mochila. Para lavá-los, há uma escovinha capaz de deixar o material limpo para o próximo uso..

Os canudinhos tem até cases artesanais para carregá-los na bolsa de forma higiênica - Divulgação/ND
Os canudinhos tem até cases artesanais para carregá-los na bolsa de forma higiênica - Divulgação/ND



Em Santa Catarina, Imbituba, Laguna e Itajaí proibiram uso de canudos. Na Capital também tramita lei semelhante, porém ainda prevê como uma das opções o uso de canudos de papel recicláveis.

“Porém, os canudos de papel não são recicláveis pela cola contida no seu interior. O ideal é que a lei faça uma correção e obrigue a substituição por canudos compostáveis”, explica o engenheiro de materiais, especialista em plásticos e bioplásticos, João Carlos de Godoy Moreira, 52 anos.

Produtos feitos a partir de matérias-primas renováveis, que se dissolvem rapidamente e nutrem a terra, em vez de contaminá-la  - Letícia Matos/Divulgação/ND
Produtos feitos a partir de matérias-primas renováveis, que se dissolvem rapidamente e nutrem a terra, em vez de contaminá-la - Letícia Matos/Divulgação/ND


Matérias-primas renováveis

João fundou há quatro anos a empresa OEKO, situada na Lagoa da Conceição. Os produtos são produzidos a partir de matérias-primas obtidas de fontes renováveis, como biomassa da mandioca e do milho, cana de açúcar e óleos vegetais. O que significa que os sacos, sacolas, copos e canudos da OEKO se dissolvem rapidamente e nutrem a terra, em vez de contaminá-la.

É um exemplo de economia circular, um modelo socioambiental de fazer negócios, responsável pelo que produz e pelo que põe fora.

Infelizmente, o modelo padrão ainda é o da economia linear, aquela que produz, consome e descarta impunemente, sem cuidado, critério e consciência.

Mas o interesse do público consumidor pela sustentabilidade tem mostrado que as marcas que atendem essas necessidades têm mercado em expansão.

A OEKO cresce anualmente mais de 100% e é capaz de atender escolas, unidades de saúde, indústrias, empresas e domicílios. A tecnologia da empresa foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de São Carlos e é referência mundial.

Empresa de João, que produz sacos, sacolas e canudos a partir de matérias como a biomassa do milho, cresce 100% ao ano - Divulgação/ND
Empresa de João, que produz sacos, sacolas e canudos a partir de matérias como a biomassa do milho, cresce 100% ao ano - Divulgação/ND



Solução é cidadã

Um mundo novo é possível. Não é título de livro de autoajuda. É a constatação das pesquisas mais avançadas sobre sustentabilidade. Bastam que as pessoas se engajem, amadureçam e percebam que são, sim, responsáveis pelo lixo que produzem. De acordo com a ONU Meio Ambiente a maneira mais eficaz de lidar com o lixo é a compostagem. Técnica simples, fácil de aprender.

Pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, nos aterros deveriam ir apenas rejeitos, como papel higiênico, fitas adesivas, luvas.

No aterro sanitário de Biguaçu, 48% do lixo é compostável. O resíduo orgânico jogado no aterro - que não tem a presença de oxigênio -, forma o gás metano, 24 vezes mais nocivo que o Co2, e um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global e, consequentemente, pela morte de milhares de espécies.

Os outros 35% são de recicláveis, que deveriam ser encaminhados para cooperativas. Mas há apenas 36 empresas de recicláveis no Brasil. Na Áustria, que tem praticamente a extensão de Santa Catarina, há 469 empresas. Então falta muito para o reuso.

Das mais de 200 mil toneladas de resíduos recolhidos pela Comcap por ano, apenas 6,92% é desviado para reciclagem. É mais fácil substituir o lixo reciclável por compostável e exercitar a cidadania do que esperar que a salvação venha da indústria.

Na lancheria orgânica de Cássia e Tatiana o cliente usa utensílios compostáveis - Divulgação/ND
Na lancheria orgânica de Cássia e Tatiana o cliente usa utensílios compostáveis - Divulgação/ND



Foi o que fizeram Cássia Osusa, 35 anos, e Tatiana Rafael, 34 anos, proprietárias do Trailer das Meninas, uma lancheria de alimentação orgânica, situada no Novo Campeche, quando conceberam o negócio.

Elas jogam na composteira os restos de frutas, potes de açaí, canudos, colheres e guardanapos, todos produzidos a partir de tecnologia adequada para serem transformados pelos microorganismos em adubo.

Outra alavança é que na última terça-feira, dia 27, foi aprovado na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Vereadores de Florianópolis o projeto de lei que dispõe sobre a obrigatoriedade da reciclagem de resíduos orgânicos na cidade, o que promoverá e ampliará a compostagem.

A proposta de implementação da lei é gradativa e setorizada. Contempla em primeiro plano o material de podas, varrições e roçagens; em segundo o lixo orgânico dos grandes geradores; e, por fim, dos pequenos.

O que foi lixo poderá ser transformado naturalmente em fertilizante para repor os nutrientes da terra. A  ideia é que a compostagem seja feita na Comcap, nas comunidades e nas residências.

Lixo no mar

Só em 2015, foram produzidas 322 milhões de toneladas de plástico, segundo a ONU. Dessa total, 95% não foi reciclado e foi para o mar. Os canudos correspondem a 4% desse total. Para saber o que mais circula nos oceanos basta examinar o estômago dos animais marinhos. Na metade desse mês uma baleia cachalote foi encontrada morta, na Indonésia, com seis quilos de plástico no estômago:  115 copos, 25 sacolas plásticas, garrafas e chinelos de borracha.

De acordo com um estudo divulgado pelo Fundo Mundial da Natureza (WWF), nove a cada dez aves marinhas também possuem plástico no estômago.

Já o relatório, intitulado Planeta Vivo, analisou mais de 16 mil populações, de 4 mil espécies diferentes de animais, e concluíu que a vida selvagem diminuiu 60% desde os anos 70 pelas variações climáticas produzidas pela queima de combustíveis fósseis e pelo lixo.

O plástico, que não desaparece, está em formato de micropartículas no ar, na água, na terra, nos alimentos e até no intestino humano, de acordo com estudo-piloto apresentado no Congresso de Gastrienterologia, realizado em Viena, na Áustria, em outubro.

Essa degradação tem alavancado movimentos como o Floripa sem Plástico, as ações da Route e da IEATA (Instituto de Estudos Ambientais Trilheiros de Atitude), e projetos de lei,  que tentam reverter a comercialização de produtos oxibiodegradável, extremamente poluentes, por biodegradáveis.

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