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Pesquisa inédita descobre 138 novas espécies de orquídeas em Florianópolis

Projeto Orquídeas de Florianópolis realizou expedições em Unidades de Conservação e trilhas em busca de novas flores; estudo é o mais completo desde a década de 1960

Fábio Bispo
Florianópolis
08/01/2019 às 13H46

Elas fascinam a humanidade desde a antiguidade. Para os gregos, as flores de rara beleza simbolizavam virilidade, mas ao longo da história também emprestaram seu deslumbre para representarem o amor, o luxo e a beleza. Confúcio (551-479 a. C.), pensador e filósofo chinês, foi um desses admiradores, citou as orquídeas em diversos trabalhos e desde sua época o seu povo passou a chamar de “a planta da Fragrância do Rei”. Em Florianópolis é na primeira semana de dezembro, na transição da primavera para o verão, que as encostas da Mata Atlântica ganham o colorido especial da Laelia purpurata, flor é símbolo da cidade, em tons que vão do branco ao lilás. E a Laelia  apenas é um dos destaques do projeto Orquídeas de Florianópolis, que publica em abril o primeiro estudo sistêmico das espécies na Capital catarinense desde a década de 1960. O trabalho identificou a presença de 138 espécies não registradas e aguarda a confirmação de uma nunca antes identificada na botânica, que poderá ter no nome uma homenagem a Lagoa do Peri, região onde foi encontrada. 

Nascimento encontrou espécie jamais registrada pela botânica - Marco Santiago/ND
Espécie nunca antes catalogada pela botânica no mundo foi encontrada por Nascimento - Marco Santiago/ND

Liderado pelo geógrafo Marcelo Vieira Nascimento, o projeto do livro, que também contará com um site, conseguiu catalogar a ocorrência de 287 espécies, sendo dois híbridos da Laelia purpurata, pertencentes a 97 gêneros em Florianópolis. O levantamento atualiza realizados pelo padre Raulino Reitz, há quase 70 anos. Até então, os registros oficiais apontavam 148 espécies presentes em Florianópolis.

Entre as encontradas nas expedições realizadas em trilhas e unidades de conservação , Nascimento aponta que está praticamente certa a ocorrência de uma espécie ainda não descoberta pela ciência. A flor foi encontrada no Sertão do Peri e se confirmado o ineditismo será batizada como Acianthera Peri, ou Periensis. Na mesma região foi encontrada a menor orquídea o mundo, em 2015

“Quando comecei esse projeto não sabia onde ia chegar, mas tinha certeza que encontraria espécies ainda não registradas para Florianópolis e em Santa Catarina. Já tinha visto muitas dessas na mata e sabia que não estavam catalogadas”, explica Nascimento, além de novos registros na cidade, as pesquisas encontraram seis espécies nunca antes notificadas no Estado. Em Florianópolis, pelo menos 14 espécies correm risco de extinção, incluindo variedades da Laelia purpurata.

Mas o sonho de fazer um levantamento sistêmico, que pudesse ampliar os achado do padre Raulino Reitz, era antigo, desde quando ocupou a presidência da Federação Catarinense de Orquidofilia. “Eu tinha a intenção de fazermos um atlas das orquídeas no Estado, mas acabou não acontecendo. Quando saí da Federação o sonho continuou e em 2017 começamos esse projeto com uma equipe de 15 pessoas que inclui biólogo, historiadores, fotógrafos e ilustradores”, afirmou.

O livro, assim como todo o projeto, terá ao mesmo tempo a complexidade exigida pela ciência para reconhecimento do estudo com toques de obra de arte, história popular e literatura, permitindo que o trabalho circule entre toda a população.  A ilustração botânica, por exemplo, mistura a precisão do olho humano com o olhar artítico de cada um dos seis ilustradores. O livro também trará um capítulo breve sobre a história da cidade. "Chamamos de 'Historiando Florianópolis', porque não temos a intenção de contar toda a história da cidade, mas para introduzir ao leitor algumas questões próprias do contexto da pesquisa", explica Nascimento. O capítulo é escrito em parceria com a historiadora Eliane Veras.

A queridinha da cidade

A Laelia purpurata, que tem um capítulo somente dedicado a sua história, ganhou 32 ilustrações diferentes para mostrar as diferentes variaçõe de cor da planta, incluindo a capa do livro, feita pela ilustradora Ana D’Almeida. “Eu acompanhei cada uma das ilustrações, que mostram as diferentes variedades e cores da purpurata, tentando reproduzir ela da forma mais natural possível”, conta.

Espécies raras foram encontradas por Nascimento - Marco Santiago/ND
Híbrido da Laelia purpurata em floração - Marco Santiago/ND

A pesquisa conta a saga em torno da descoberta do primeiro registro da flor-símbolo de Florianópolis e de Santa Catarina. “O primeiro registro foi feito em 1831 pelo botânico francês Charles Gaudichaud-Beaupré e conseguimos encontrar a 'cícada' (amostra seca da planta) no Museu de História Natural da França, praticamente intacto”, explica.

As 'cícadas' das espécies coletadas nas expedições para o projeto foram todas depositadas no herbário do Jardim Botânico de São José. O armazenamento das plantas secas é a forma científica mundialmente aceita para o registro de novas espécies.

Além do livro, o projeto encabeçado por Nascimento também vai abrir para consulta pública a maior biblioteca privada da América Latina dedicada às orquídeas. O orquidário privado, que também já é usado para pesquisas e visitações, aguarda alguma manifestação do poder público para ser transferido para local de melhor acesso para visitação e pesquisa. “A lei que institui o orquidário de Florianópolis é de 2006, mas até agora ele não foi criado. O meu sonho é que isso tudo seja levado para algum lugar onde as pessoas possam visitar, pesquisar e conhecer mais de perto essas belezas”, emendou.

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