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Livro conta a epopeia da reconstrução das fortalezas de Florianópolis

Conheça a história de Armando Gonzaga, empresário que tornou-se um verdadeiro "cuidador" do patrimônio

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
12/08/2017 às 09H48

Quando soube, em 1975, que o edifício do antigo forte Santa Bárbara estava prestes a ser demolido para dar passagem a uma nova avenida sobre o aterro, no Centro de Florianópolis, o empresário Armando Luiz Gonzaga correu para o gabinete do prefeito Esperidião Amin na tentativa de mudar a decisão dos planejadores urbanos. Ali soube que o prédio, erguido na segunda metade do século 18, iria abaixo porque tinha pouca importância histórica, valor arquitetônico quase nulo (por causa das intervenções feitas ao longo do tempo) e atrapalhava a mobilidade na cidade. A saída iminente da Capitania dos Portos era a senha para derrubar a construção, ação que tinha o respaldo das autoridades, da imprensa e da população da Capital.

Gonzaga lutou para que o forte de Santa Bárbara fosse destruído - Dieve Oehme/Divulgação/ND
Gonzaga lutou para que o forte de Santa Bárbara fosse destruído - Dieve Oehme/Divulgação/ND



Desvinculado da Marinha, onde ocupara cargos de alta patente, após ser chamado pelo pai para tocar a construtora A Gonzaga, uma potência à época, Armando afrontou meia cidade, foi atrás de apoios e, meio sem querer, iniciou ali uma cruzada pela preservação e restauração das fortalezas da Ilha de Santa Catarina e do entorno. Até então, o sistema defensivo edificado antes da chegada dos casais açorianos pelo brigadeiro José da Silva Paes amargava dias de ruína, abandono e indiferença, a ponto de alguns fortes estarem desmoronando, cobertos pelo mato e pelo descaso dos governos e moradores. Se atualmente as principais fortalezas são atrações turísticas e objeto de cuidados de toda ordem, é porque lá atrás alguém moveu mundos e fundos para tirá-las do ostracismo.

Agora, um projeto que Armando começou a elaborar há mais de 15 anos ganha as ruas. Ele morreu em abril de 2016, mas o jornalista Celso Martins, que já vinha escrevendo o livro, fez os ajustes finais de “Memórias das Fortalezas – Ilha de Santa Catarina”, que vai ser lançado na terça-feira, dia 15, às 18h30, no hall da Sala Lindolf Bell, no CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis. O livro tem tiragem de 2.000 exemplares, a metade com capa dura, relativa à edição aprovada pela Lei Rouanet, e a outra parte na forma de brochura, apoiado pelo Edital Elisabete Anderle 2014, da Fundação Catarinense de Cultura.

Livro será lançado nesta terça-feira, com 2.000 exemplares impressos - Divulgação/ND
Livro será lançado nesta terça-feira, com 2.000 exemplares impressos - Divulgação/ND



O forte que atrapalhava a cidade

O forte Santa Bárbara, localizado na rua Antônio Luz, era comparado ao bar Miramar, já então demolido, e à ilha do Carvão, engolida pelo aterro da baía Sul – “não tem valor arquitetônico”, eis o pecado que lhe era atribuído. Pior, sua presença ali, ao lado do canal da avenida Hercílio Luz, impedia a modernização da cidade. Sede da Capitania dos Portos, o edifício recebeu a visita de Armando Gonzaga, que fora renovar a licença de sua lancha e descobriu o plano da prefeitura de remover o obstáculo que impedia a continuidade do traçado da avenida Paulo Fontes. O prefeito Esperidião Amin disse que nada mais havia a fazer, e o empresário engajou os arquitetos Cyro Corrêa Lyra (do Rio de Janeiro) e José La Pastina Filho (do Paraná), que estavam na cidade, além do historiador Oswaldo Rodrigues Cabral e sua sobrinha Sara Regina Silveira de Souza, na luta pelo salvamento do prédio.

Artigos e matérias nos jornais “O Estado” e “A Gazeta”, assinados por esse grupo ainda em 1975, ajudaram a reverter a situação. Até então, nenhuma autoridade havia pedido o tombamento da fortificação, e Armando Gonzaga apelou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para que fizesse isso, mesmo reconhecendo que a edificação perdera as características originais. Até o arquiteto Lúcio Costa, que projetara o plano piloto de Brasília, entrou no circuito e disse num parecer que o tombamento deveria ser local, pela relevância do prédio e pelo empenho de historiadores e lideranças de Florianópolis. O traçado da avenida, contornando a construção, foi mudado pelos órgãos de planejamento urbano, e o forte se salvou definitivamente.

Depois de muitos percalços, pareceres e protelações, o Iphan aprovou, em setembro de 1983, o tombamento do forte Santa Bárbara. Ele não reunia todos os requisitos exigidos para isso, mas foi poupado porque tinha importante valor simbólico para a cidade – e fora defendido por Armando Luiz Gonzaga.

Reitor visita a ilha e assume fortaleza

As experiências com o forte Santa Bárbara e depois com o forte Santana, também tirado do limbo e transformado em museu militar, fizeram Armando Gonzaga eleger a recuperação do sistema de defesa da Ilha de Santa Catarina como bandeira – em nome, sobretudo, dos ganhos turísticos que isso traria para a cidade. Em outubro de 1969, o empresário e os arquitetos Luís Saia e Cyro Corrêa Lyra usaram facões para entrar na fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, onde se depararam com a falta de coberturas, portas e janelas e viram mato por todos os lados. Gonzaga teve a ideia de levar detentos da penitenciária estadual para a ilha, fazendo o serviço pesado enquanto os professores e os alunos de arquitetura que traziam de Curitiba se responsabilizavam pela identificação dos problemas e elaboração das plantas do que restava das edificações.

Forte de Santana no começo da restauração - Divulgação/Cyro Corrêa Lyra/ND
Forte de Santana no começo da restauração - Divulgação/Cyro Corrêa Lyra/ND



Ali, a restauração foi realizada entre os anos 1973 e 1974, com muita dificuldade por falta de pessoal e insumos, liberação lenta de recursos financeiros e desentendimentos entre os profissionais envolvidos. A paralisação da obra forçou Gonzaga, então cuidando de negócios particulares, a entrar novamente em cena, mas a saída para acelerar os trabalhos e resolver pendências legais só veio quando decidiu buscar ajuda na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Com a chegada de José La Pastina Filho, arquiteto com curso de restauro feito pelo Iphan e pela USP (Universidade de São Paulo), contratado pela empresa Aresta de Cyro Corrêa Lyra, as obras foram retomadas. O quartel da tropa chamou especialmente a atenção dos arquitetos por ser uma “obra excepcional se comparado com qualquer quartel feito nas outras centenas de fortificações construídas no período colonial”, nas palavras de Corrêa Lyra.

Na segunda metade dos anos 70, Armando Gonzaga levou o reitor da UFSC Caspar Erich Stemmer para Anhatomirim em sua lancha – e desse passeio, ao qual o respeitado professor de engenharia mecânica levou a família, veio a solução definitiva para aquela e mais duas fortalezas da Ilha e seu entorno. Ele se impressionou com as construções imponentes, porém em ruínas, e ficou sabendo de coisas que não conhecia, como o fuzilamento do Barão de Batovi e seu filho (além de centenas de outras figuras importantes da cidade), os enforcamentos e os corpos jogados ao mar.

Modelo de arquitetura colonial

Houve resistências na Universidade Federal, mas Gonzaga foi convencendo a todos. “Cada visitante se tornava um apaixonado pelo projeto”, disse ele em entrevista, em 1991, falando da luta pela restauração daquele patrimônio. Em 1979, finalmente, a UFSC, o Iphan e a Marinha do Brasil assinaram o convênio que transferia a administração da ilha para a universidade. O crítico catarinense Alcídio Mafra de Souza, autor do “Guia dos bens Tombados: Santa Catarina”, considerou Anhatomirim o “maior e o mais monumental complexo de arquitetura colonial existente em todo o Sul do país”.

Armando Gonzaga e os voluntários da limpeza da Fortaleza de Santo Antônio, no começo dos anos 1980 - Acervo Armando Gonzaga/Divulgação/ND
Armando Gonzaga e os voluntários da limpeza da Fortaleza de Santo Antônio, no começo dos anos 1980 - Acervo Armando Gonzaga/Divulgação/ND



Mais uma vez, Armando Gonzaga foi o discreto negociador de um processo que deu certo. Houve apoios de empresas públicas de energia, telefonia e turismo, e até as lojas de material de construção entraram com insumos para a recuperação dos edifícios em Anhatomirim. O aporte de recursos da Fundação Banco do Brasil, em 1989, acelerou os trabalhos até a conclusão do restauro e permitiu também a recuperação das fortalezas de São José da Ponta Grossa (em Jurerê) e de Santo Antônio (na ilha de Ratones Grande).

Fortaleza de São José da Ponta Grossa no começo dos anos 1970 - Cyro Corrêa Lyra/Divulgação/ND
Fortaleza de São José da Ponta Grossa no começo dos anos 1970 - Cyro Corrêa Lyra/Divulgação/ND



Em relação a Jurerê, a fortaleza estava praticamente abandonada desde a invasão espanhola de 1777. Parte das paredes fora derrubada pelos moradores do local e o entorno foi ocupado por famílias que tomaram conta da área – até hoje há pendências legais acerca de títulos de propriedade. Em 1975, três canhões foram retirados do forte e um deles foi doado para a TFP (Tradição, Família e Propriedade), movimento conservador que apoiara o golpe militar de 1964.

“Se me perguntam sobre o que pensava o público em geral, na década de 1970, sobre as fortalezas do sistema defensivo da Ilha de Santa Catarina, digo que havia um misto de desconhecimento e desinteresse”, escreveu Armando Gonzaga alguns anos mais tarde.

O edifício que o mato escondeu

Armando Luiz Gonzaga morreu dois dias antes de completar 80 anos, em 22 de abril de 2016, e deixou uma lacuna lamentada tanto por familiares quanto pelos amigos que fez, incluindo os arquitetos que abraçaram com ele a causa da recuperação das fortalezas do litoral. Além do forte Santa Bárbara, em cuja defesa se envolveu pessoalmente, e de Anhatomirim, para a qual levou autoridades, empresários, estudantes e voluntários anônimos em sua lancha Villegagnon, ele atuou no sentido de realocar as famílias que haviam ocupado o forte Santana, embaixo da ponte Hercílio Luz, totalmente abandonado até o final dos anos de 1960, permitindo a restauração concluída em 1975.

Em Anhatomirim, no período em que a cobertura ainda estava danificada - Cyro Corrêa Lyra/Divulgação/ND
Em Anhatomirim, no período em que a cobertura ainda estava danificada - Cyro Corrêa Lyra/Divulgação/ND



Outra maratona na qual a comunidade se engajou foi a da limpeza da fortaleza de Santo Antônio de Ratones, também capitaneada por Gonzaga. Durante 52 semanas ele levou estudantes e outros interessados para a ilha de Ratones Grande com o objetivo de desbastar as árvores que haviam se infiltrado entre os muros a ponto de arruinar paredes e aberturas. Até então, as muralhas estavam escondidas e poucos suspeitavam que por trás da vegetação espessa havia um forte de enormes proporções erguido dois séculos e meio antes. Os mutirões tiveram o apoio da imprensa, que divulgou e estimulou a adesão à operação, e da agência A. S. Propague, que fez uma campanha gratuita em prol da causa. O arquiteto Dalmo Vieira Filho, primeiro diretor da Iphan no Estado, se empenhou pessoalmente no projeto de restauro daquela unidade.

O jornalista Celso Martins, que escreveu o texto do livro “Memórias das Fortalezas – Ilha de Santa Catarina”, diz que “o trabalho de Armando foi a gênese da restauração do sistema de defesa na Ilha”. O arquiteto Dalmo Vieira Filho, outro parceiro de primeira hora, afirma que o empresário “foi um cidadão diferenciado, conhecido e admirado em todo o Brasil”. Ele foi oficial da Marinha, dirigiu o Estaleiro Naval e conheceu o mundo como comandante. Também foi presidente da Acif (Associação Comercial e industrial de Florianópolis) e publicou o livro “Madeira: Uso e Conservação” (Programa Iphan/Monumenta, 2006), considerado uma referência no país, resultado de seu contato com a antiga tradição dos mestres da Ribeira, artesãos trazidos de Portugal por Silva Paes no século 18. Além disso, foi juiz classista e o primeiro presidente do Deatur (Departamento Autônomo de Turismo do Estado),em 1969.

“Homem à frente de seu tempo”, define mulher

Companheira de vida e de trabalho desde 1975, Anide Gonzaga fala de Armando como um batalhador que tinha o mar como segunda casa – tanto que na residência do casal, no bairro de Cacupé, a água da baía Norte chega a poucos metros de um mirante e abriga um trapiche de uso público. A lancha do empresário singrava os mares próximos e o único exercício físico que fazia era se jogar na água e ali ficar, de colete, aproveitando as horas. “Foi uma pessoa à frente de seu tempo”, diz a mulher, que o acompanhou nos acampamentos em Anhatomirim, nas limpezas da ilha de Ratones Grande, nas idas com autoridades para mostrar os fortes e a necessidade de restaurá-los o quanto antes.

Anide acompanhou Armando em acampamentos em Anhatomirim e outras ações de preservação das fortalezas - Marco Santiago/ND
Anide acompanhou Armando em acampamentos em Anhatomirim e outras ações de preservação das fortalezas - Marco Santiago/ND



Armando teve cinco filhos, dois deles com Anide, seu segundo casamento, e conseguiu conciliar suas múltiplas atividades com a vida em família, sempre de forma harmoniosa. “No Natal, todos se reuniam aqui, inclusive sua primeira mulher”, conta. A casa é pródiga em vigias de navio que funcionam como janelas, escotilhas e peças que remetem à rotina da navegação. “Foi um pai, marido, ex-marido, amigo excepcional”, afirma Anide, lembrando que às vezes Gonzaga voltava furioso ou arrasado das reuniões que não davam em nada pela insensibilidade de seus interlocutores com o patrimônio histórico. “Ele me mostrou o mundo, me ensinou muito, foi meu ombro amigo”. As cinzas dele foram jogadas na baía, no ponto em que o mar começa a ficar mais profundo e de onde se podem divisar a ilha do Arvoredo, o Ratones Grande e o forte de São José da Ponta Grossa.

De acordo com Teresa Collares, da Rede Marketing Cultural, que executou a coordenação geral do projeto desde 2012 e assumiu também como proponente junto ao MinC com a morte de Gonzaga, a edição do livro é um exemplo de como as leis de incentivo à cultura podem resultar em obras de grande relevância para a sociedade. “As leis são ferramentas de política cultural, e num momento difícil como este acabam estimulando também a economia, porque envolvem, além dos proponentes e autores, agentes como gráficas, distribuidores de livros, profissionais de editoração e outros”, afirma. Pela Lei Rouanet, os patrocinadores da edição foram a Clemar Engenharia, o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) e a Engie.

 

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