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Ao menos 62 mortos são confirmados em grande incêndio florestal em Portugal

Muitas das vítimas morreram carbonizadas em seus carros enquanto viajavam em uma estrada, outras pessoas morreram por inalar fumaça

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
18/06/2017 às 21H27

GIULIANA MIRANDA

PORTO, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - No dia seguinte ao maior incêndio de sua história, Portugal ainda contabilizava os estragos da tragédia. Pelo menos 62 pessoas, incluindo quatro crianças, morreram em Pedrógão Grande e arredores, na região de Leiria, no centro do país.

Até a madrugada desta segunda-feira (19), o fogo, que começou na tarde de sábado (17), ainda não estava controlado. Apesar do trabalho de cerca de 750 bombeiros, pelo menos cinco frentes de incêndio permaneciam ativas.

>> "Estrada da morte" fez 47 das 61 vítimas de grande incêndio em Portugal

Pessoas morreram carbonizadas em seus carros enquanto viajavam em uma estrada - Paulo Novais/Lusa
Pessoas morreram carbonizadas em seus carros enquanto viajavam em uma estrada - Paulo Novais/Lusa

O vento forte e o tempo quente e seco na região facilitaram a propagação das labaredas. Por isso, temendo novas vítimas, as autoridades portuguesas determinaram a evacuação de cinco aldeias e não descartam novas remoções.

Entre os sobreviventes, o relato é de cenas de terror.

A aldeia de Pobrais, concelho (equivalente a município) de Pedrógão Grande, perdeu um terço de seus habitantes: há pelo menos 11 mortos no vilarejo.

Situação semelhante viveu a aldeia de Nodeirinho em que 10 pessoas perderam a vida.

"Nunca tinha visto uma coisa assim. O fogo voava", conta Eugénio Santos, um dos sobreviventes do incêndio, que diz ter auxiliado vários vizinhos, mas ainda não tinha notícias do paradeiro do próprio filho.

Chegou-se a cogitar que o incêndio seria criminoso, mas a hipótese foi descartada pela Polícia Judiciária, responsável pela investigação.

Segundo a instituição, o fogo começou com um raio que atingiu uma árvore, em Pedrógão Grande, e chegou com velocidade aos concelhos adjacentes de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra.

Apesar de quase 2.000 homens terem se revezado durante o domingo no combate ao incêndio, diversos moradores reclamaram da quantidade insuficiente de bombeiros.

A televisão portuguesa chegou a transmitir, ao vivo, a tentativa desesperada de moradores da aldeia de Ansião de combater o fogo com as próprias mãos e com recursos das fazendas.

Em toda a região atingida, cerca de 150 pessoas estão desabrigadas.

"Era um inferno autêntico", diz sobrevivente

"Não se via nada na estrada, porque estava tudo a arder. Era um inferno autêntico", descreve Maria de Fátima Nunes, moradora de Pedrógão Grande, região no centro de Portugal, que conseguiu escapar do maior incêndio florestal da história do país.

Maria de Fátima e o marido foram algumas das centenas de pessoas que, diante da proximidade das labaredas, tentaram usar as rodovias da região para escapar. Com as altas temperaturas -cerca de 40ºC- e os ventos fortes, a estrada rapidamente também acabou tomada pelas chamas.

"Fomos por lá porque não se sabia que a estrada estava em perigo", explica Maria, com a voz embargada.

"Não se via nada, nada. Era horrível. Os pinheiros começaram a cair para cima dos carros", descreve ela, que, assim como o marido, conseguiu escapar do carro e da estrada, apesar de queimaduras de primeiro e segundo graus nos braços e no pescoço.

A moradora diz que houve pânico na estrada e que vários veículos acabaram batendo, diante da fumaça e das árvores incandescentes que tombavam no caminho.

"Eu gritei para a senhora que estava no carro atrás de mim sair, mas ela não conseguiu", relata.

Ela diz que perdeu documentos, dinheiro e quase todos os pertences com incêndio.

Maior incêndio da história

O incêndio já é o maior da história de Portugal, um país que tem já tem tradição de ser castigado pelo fogo durante os meses mais secos do ano (entre maio e setembro). Chegou-se a cogitar que o fogo seria criminoso, mas a hipótese foi descartada pela PJ (Polícia Judiciária), responsável pela investigação.

Segundo a PJ, o fogo começou com um raio que atingiu uma árvore. Com os ventos fortes, o clima seco e as altas temperaturas, as chamas rapidamente se alastraram. O fogo começou em Pedrógão Grande e chegou com velocidade às vilas vizinhas de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra.

Atualmente, cerca de 900 bombeiros (muitos deles voluntários), e cerca de 300 viaturas trabalham no combate ao incêndio, que ainda não foi controlado em várias de suas frentes.

Diante da tragédia, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, foram até local acompanhar as operações.

"Temos pela primeira vez uma calamidade humana desproporcionada", resumiu o socialista António Costa. "Essa é uma realidade, nova, dura, e que vai exigir de todos nós muita consideração e atenção às famílias. A prioridade agora é combater o incêndio e auxiliar as famílias que estão enlutadas", completou. "Muito provavelmente, o número de mortos irá subir", admitiu o primeiro-ministro.

Diversos países europeus manifestaram solidariedade e pesar com as vítimas portuguesas. O governo da França e da Espanha estão enviando auxílio material, sobretudo helicópteros, para combater o incêndio.

Devido ao fogo, várias regiões ficaram isoladas, com as estradas cortadas e também sem luz, telefone e internet devido ao derretimento dos cabos.

Homenagem em jogo contra o México

A seleção portuguesa de futebol jogará com uma tarja negra de luto e fará um minuto de silêncio antes do início da partida contra o México (às 12h do horário de Brasília) válida pela Copa das Confederações neste domingo (18). Também será lida uma mensagem em português, em inglês e em russo.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, que está em Kazan, fez questão de ir à sala de imprensa falar com os jornalistas portugueses. "Hoje é um dia muito triste e estamos todos com Portugal. Um grande abraço de todo o coração para Portugal. Eu não tenho palavras", afirmou Gianni.

A Federação Portuguesa de Futebol, os jogadores, os treinadores e o estafe da seleção presentes em Kazan decidiram juntar uma quantia em dinheiro para entregar ao município afetado, a fim de auxiliar as famílias das vítimas mortas no incêndio.

Os jogadores e a comissão técnica também assinaram uma carta de apoio aos familiares das vítimas.

Leia a íntegra abaixo:

"O dia em que iniciamos a participação na Taça das Confederações é igualmente um dia de grande consternação e dor para o País que orgulhosamente representamos. A tragédia ocorrida em Pedrógão Grande, que reclamou a vida de tantos dos nossos compatriotas, não pode deixar ninguém indiferente e certamente não nos deixa a nós. Nesta hora tão triste, enviamos as mais sentidas condolências às famílias, amigos e entes queridos das vítimas dos incêndios. Se temos consciência de que meras palavras não poderão minimizar a vossa dor que também é nossa, dizemo-vos, ainda assim, que hoje em campo levaremos o vosso coração no nosso coração. "

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