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O município de Biguaçu completa nesta quinta-feira (17) 185 anos de emancipação político-administrativa

Arte - Especial Biguaçu - Arte/ND
Arte/ND

#Biguaçu185anos

Histórias de moradores que viram o crescimento da cidade 


Reportagem: Andréa da Luz
Fotografia: Marco Santiago e Flávio Tin
Edição: Sendy Luz

O município de Biguaçu, na Grande Florianópolis, completa nesta quinta-feira (17) 185 anos de emancipação político-administrativa. 

O vilarejo foi fundado em 1748 por imigrantes portugueses vindos do arquipélago dos Açores e da Ilha da Madeira, que se estabeleceram no Balneário de São Miguel, então denominado São Miguel da Terra Firme, na parte norte de Biguaçu. No entanto, o local só passou à categoria de município em 1833, quando foi instalada a primeira Câmara de Vereadores de São Miguel. Em 1894, a sede municipal de São Miguel foi transferida para Biguaçu, com a consequente alteração do nome, poucos anos depois.

Nesses 185 anos, a cidade passou de um lugar com pouca infraestrutura e desenvolvimento baseado na agricultura, para um município que hoje atrai visitantes e residentes de várias partes do Estado e do Brasil, sem perder o charme das pequenas cidades. A economia cresceu, fomentada pelas indústrias de plásticos e pelo comércio.

#Dalvina de Jesus Siqueira

Muitos moradores - especialmente os mais antigos - viram esse crescimento de perto. É o caso da escritora e artista plástica Dalvina de Jesus Siqueira, 89 anos, professora aposentada e fundadora da Academia de Letras de Biguaçu. Ela lembra que quando era menina tudo era muito diferente. "Aqui onde é a praça central era um pasto e na rua lateral passava um riacho, onde a gente pegava a água limpa e fresca com a mão e bebia", recorda.

Aniversário de Biguaçu  - Marco Santiago/ND
Dalvina de Jesus Siqueira, 89 anos, professora aposentada e fundadora da Academia de Letras de Biguaçu - Marco Santiago/ND


Dona Dalvina começou a lecionar aos 13 anos, no interior de Três Riachos. Ia de carroça pelas estradas de barro, à noite, e pernoitava na casa de colonos por cerca de um mês enquanto lecionava para alunos muitas vezes mais velhos do que ela. O amor pela educação venceu as dificuldades e ela continuou estudando e se formou professora no Curso Normal, em 1967. Persistente, fez o curso de Pedagogia aos 41 anos (coisa rara para a época) e também foi diretora de várias escolas públicas por 12 anos e se aposentou após 45 anos de trabalho na Educação.

A vivência de Dalvina lhe permite ter uma visão privilegiada do município. Para ela, foi um crescimento lento, porém contínuo. "Levou 50 anos para Biguaçu crescer e o desenvolvimento só se acelerou de uns três anos para cá. Somente agora estamos perto de ter uma maternidade, finalmente as mães poderão ter seus filhos aqui", comenta.

Aniversário de Biguaçu  - Marco Santiago/ND
A vivência de Dalvina lhe permite ter uma visão privilegiada do município - Marco Santiago/ND

Seus olhos atentos para as belezas da vida registraram parte de sua história( e a da cidade) nos vários livros de poesia e crônicas que publica desde 1995. Viúva e mãe de 11 filhos, tem 30 netos e 16 bisnetos e mantém-se ativa: escreve, pinta telas, faz tricô e atua na Academia de Letras, sempre pensando na preservação da cultura da cidade. Mas sem esquecer dos problemas reais. "Biguaçu é um diamante no Sul do Brasil, mas que necessita ser lapidado. Precisamos de muitas coisas ainda, como uma clínica médica de ponta para que não seja necessário se deslocar até a Capital. Nem cinema temos mais, porque o que tinha foi demolido", aponta. A realidade, no entanto, não a impede de sonhar com dias melhores. "A Biguaçu do futuro para mim seria uma cidade com boa educação, economia muito forte e sem corrupção".

#Aclíci João de Campos

Aniversário de Biguaçu  - Marco Santiago/ND
Nascido em Três Riachos e de origem humilde, trabalha desde muito cedo e nem pensa em parar - Marco Santiago/ND

Outra figura icônica, conhecida por toda Biguaçu, é Aclíci João de Campos, o seu Pialo. Esse simpático senhor de 81 anos, pai de duas filhas e com um neto, não passa despercebido na cidade.

Nascido em Três Riachos e de origem humilde, trabalha desde muito cedo e nem pensa em parar. "Fui agricultor por 30 anos, capinava terrenos durante o dia e à noite dirigia uma kombi que transportava as pessoas do interior ao centro da cidade", recorda. "Depois, no começo dos anos 1970 fui motorista de ônibus na linha Biguaçu-Florianópolis, até que ingressei como motorista no Sindicato de Construção Civil, em 1980", conta.

Ele também se envolveu em vários trabalhos comunitários na Capela da Limeira e da Igreja Matriz, na viabilização da construção da Capela Santa Clara, no bairro Vendaval, foi voluntário no Asilo de Idosos Osvaldo Alípio da Silva e ajudou a fundar a APAE, entre muitos outros trabalhos.

Aniversário de Biguaçu  - Marco Santiago/ND
Toda essa disposição em ajudar os outros acabou levando seu Pialo à política - Marco Santiago/ND

Toda essa disposição em ajudar os outros acabou levando seu Pialo à política. "Fui eleito pela primeira vez em 1983, quando o mandato ainda era de seis anos e a gente não ganhava quase nada", diz. E o feito se repetiu por seis vezes (na sétima foi suplente, mas acabou assumindo também). "Não fui vereador para ficar rico, o terreno que eu tenho até hoje, onde construí minha casa, foi meu sogro que me deu quando me casei, há 48 anos", explica.

Aniversário de Biguaçu  - Marco Santiago/ND
Com a idade, não pretende mais se candidatar a cargos políticos, mas diz que ainda há muito por fazer - Marco Santiago/ND

Com a idade, não pretende mais se candidatar a cargos políticos, mas diz que ainda há muito por fazer, principalmente no interior do município que necessita ter estradas asfaltadas para melhorar a infraestrutura na região. "A melhor experiência foi ter atuado como Presidente da Câmara, quando aprovamos o primeiro plano Diretor da Cidade", avalia. "Biguaçu é e vai continuar sendo uma cidade muito boa de se morar. Faz tempo que deixou de ser cidade-dormitório, são quase 80 mil habitantes e continua crescendo muito", afirma.

#Abraão Salum

A vida de Abraão Salum, 81 anos, também se mistura com a história de Biguaçu, e em especial do esporte amador. Residente em Balneário São Miguel há 20 anos (antes, morou por 60 no centro de Biguaçu), o servidor público federal aposentado foi um dos fundadores - e jogadores - do BAC (Biguaçu Atlético Clube). "Naquela época, já existiam diversos clubes mas quem originou o BAC foi o time do meu pai Nagib Salum", conta. "A construção da BR-101 acabou com o campo do BAC, então junto com o advogado Acácio Zênio da Silva e outros amigos nós viabilizamos a construção do estádio", diz.

Aniversário de Biguaçu  - Flávio Tin/ND
 Abraão Salum foi um dos  fundadores e jogadores  do BAC (Biguaçu Atlético Clube) - Flávio Tin/ND


Segundo Salum, o advogado conseguiu ajuda de um dos engenheiros da empresa responsável pela rodovia para construir o novo campo de futebol. E ele foi inaugurado em 1955, como o Estádio Acácio Zênio da Silva, em homenagem ao advogado que lutou para viabilizar a obra. "O jogo de inauguração foi contra o Avaí e perdemos de 3 a 1", relembra sorrindo.

Ainda no futebol, coordenou o Campeonato de Futebol de Biguaçu e mais tarde funou a LICOB (Liga de Futebol da Comarca de Biguaçu), que existe até hoje. "No início a gente fazia os torneios com todos os jogos no campo do BAC, eram por volta de 20 times, depois começamos a levar os jogos para outros campos, como o Vendaval e os de Governador Celso Ramos e Antônio Carlos", revela.

Aniversário de Biguaçu  - Flávio Tin/ND
Por muitos anos, ele também se envolveu com a tradicional Festa do Divino e a Festa de Nossa Senhora de Navegantes, em São Miguel - Flávio Tin/ND

Salum fez parte do BAC por 40 anos, até 1995, quando resolveu se afastar. "Eu já estava cansado e o time amador começou a se profissionalizar, então decidi sair", afirma.

Mas não abandonou os esportes. Desde 1980 ele já vinha organizando os Jogos de Verão. "Eram campeonatos de caiaque, vôlei e vôlei de praia realizados na praia do Riozinho até o Morro do Zé Bento e movimentava a comunidade", explica. "Eu também jogava vôlei, mas assim como no futebol, eu não era lá muito bom" .

E não foi só nos esportes que Salum atuou. Por muitos anos, ele também se envolveu com a tradicional Festa do Divino e a Festa de Nossa Senhora de Navegantes, em São Miguel. "Numa ocasião eu ganhei na loteria e banquei a festa do Divino", recorda. Além disso, nunca tínhamos feito festa de Navegantes aqui então conversei com os pescadores e resolvemos fazer", conta. "Na primeira vez não deu muita coisa, foi festa pequena, mas na segunda festa já reunimos 20 baleeiras (barcos de pesca)".

Aniversário de Biguaçu  - Flávio Tin/ND
Da tranquilidade de sua casa à beira-mar, reflete sobre os rumos da cidade - Flávio Tin/ND

Abraão Salum foi até vereador, em 1970, porém diz que não foi possível realizar grandes mudanças devido à falta de recursos. Em 1980, ele ajudou a fundar o PFL (atual DEM), sigla na qual permaneceu por 15 anos. Depois, abandonou a política e resolveu descansar. Ocupa suas tardes assistindo futebol na TV ou indo até a praça central encontrar os amigos para um dominó.

Da tranquilidade de sua casa à beira-mar, reflete sobre os rumos da cidade. "Nossa cidade era muito pacata, tinha cerca de 20 mil habitantes e a gente conhecia todo mundo. Hoje, quando vou à praça, de 10 pessoas conheço duas", diz. "Biguaçu está crescendo, a qualidade de vida melhorou, mas no meu entendimento, é um crescimento desordenado como na maioria das cidades".

Histórias de moradores que viram o crescimento da cidade de Biguaçu  - Reprodução/ND
Histórias de moradores que viram o crescimento da cidade de Biguaçu - Reprodução/ND