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Manoel Alves Ribeiro, o seu Mimo: camarada sem desafetos

Um líder nato e carismático que ficou quatro meses no sótão da casa para não ser preso

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
15/07/2017 às 12H12

A série acerca do Acervo da Ditadura foi um desfile incontável de parágrafos sobre prisões, perseguições, torturas, mortes e o sumiço de corpos de inimigos do regime militar, mas termina com uma história que, sem ser menos dramática, agrega uma pitada de humanidade ao assunto. O personagem-tema é um eletricista autodidata que chegou a ser vereador e se tornou referência de correção política ao longo de uma carreira exemplar. Manoel Alves Ribeiro (1903-1994), conhecido como “seu Mimo”, foi um militante comunista que jamais abriu mão de suas convicções, mesmo depois do fim da União Soviética e da queda do Muro de Berlim – episódios que decretaram, para muitos historiadores, o ocaso de um ciclo histórico.

Autodidata, Manoel Alves Ribeiro chegou a  vereador e se tornou referência de correção política - Marco Santiago/Reprodução/ND
Autodidata, Manoel Alves Ribeiro chegou a vereador e se tornou referência de correção política - Marco Santiago/Reprodução/ND



Sem muito estudo, mas matreiro, Mimo sabia que era procurado e se escondeu no sótão da casa onde morava, na rua José Boiteux, para fugir à prisão, e ali ficou trancafiado durante quatro meses. Militares do Exército vinham, vasculhavam tudo, reviravam baús e guarda-roupas, ameaçavam a família e iam embora, enquanto o militante respirava baixinho acima do forro para não ser encontrado. Quando passou a pior fase, meses depois do golpe de março de 1964, ele saiu do esconderijo e se deixou prender, submetendo-se aos interrogatórios, ao ambiente minúsculo e desconfortável da cela, mas já sem os riscos que correram outros detratores do regime de força.

Um ícone para a militância de esquerda no Estado, seu Mimo foi amigo do líder operário Álvaro Ventura, companheiro de labuta na construção da ponte Hercílio Luz, e posteriormente guindado, já como deputado federal, à condição de presidente do Congresso do Partido Comunista – onde passou a secretaria geral do partido a Luiz Carlos Prestes. Fiel ao Partidão, acolhia numa casa de praia os companheiros perseguidos e abrigava estudantes do interior sem dinheiro para pagar a pensão. No final da vida, universitários revezavam-se com seus filhos na escala de horários para cuidá-lo, no hospital. No livro “Caminho” (editora Garapuvu, 1989), deixou registrada sua visão do século em que viveu, da fundação do PCB aos estertores da ditadura, nos anos 80.

“Ele era meu ídolo, gostava de vê-lo discursar e admirava a forma como recebia correligionários e membros de partidos adversários para conversar”, diz Glória Ribeiro Freyesleben, sua filha. “Era otimista, mas admitia que não teria tempo para ver a ‘aurora’, ou seja, o fim das desigualdades sociais no Brasil”.

 

Eletricista na construção da ponte

Nascido em Imaruí, no sul do Estado, Manoel Alves Ribeiro participou, aos 17 anos, em Lauro Müller, da primeira greve numa mina de carvão. Em 1922, trabalhou como eletricista na ponte Hercílio Luz, quando teve contato com as dificuldades dos operários num tempo de poucas leis e proteções trabalhistas. Participou da criação do PCB em Santa Catarina, em 1939, e seis anos depois assumiu a direção estadual do partido. Antes disso, com outros militantes, começou a organizar sindicatos de trabalhadores da construção civil, metalúrgicos, gráficos, padeiros, garçons, comerciários e estivadores. Foi vereador na Capital pela legenda do PSP (Partido Social Progressista), a mesma de Paulo Stuart Wright, entre 1959 e 1963. Único comunista na Câmara, era considerado um grande orador e chegou a visitar a União Soviética a convite do governo daquele país.

Perseguido por pertencer a um partido estigmatizado, e já fora do legislativo municipal (ficou na suplência quando tentou a reeleição), seu Mimo isolou-se no forro de casa porque, caso fosse preso, “seria torturado e preferia a morte a denunciar um companheiro”, nas palavras da filha Glória. Quando foi apanhado, num ponto de ônibus, passou 57 dias no quartel da Polícia Militar, onde era vigiado por um agente da CIA. Teve os direitos políticos cassados e aguardou o julgamento em liberdade. Com indicativo de prisão preventiva, presumindo a condenação, rumou para Porto Alegre, onde trabalhou como eletricista, sempre às escondidas. Quando a pena de dois anos de prisão prescreveu, em 1973, voltou para Florianópolis. “Ele não apanhou, mas a tortura que teve foi psicológica”, diz a filha.

 

Casa acolhia estudantes e perseguidos

Personagem que marcou a vida de Florianópolis, seu Mimo abordou, no livro “Caminho”, a própria luta de trabalhador e militante e fatos políticos nacionais e internacionais. Ali, ele comenta sobre a coluna Prestes, a Revolução de 1930, a ANL (Aliança Nacional Libertadora) e o levante de 1935, a intentona integralista de 1937, o avanço do nazifascismo na Europa, a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial, a legalização do PC (com a eleição de seus membros à constituinte de 1946), a campanha das Diretas-Já, o colégio eleitoral e a eleição de José Sarney. Passou os últimos anos no bairro Tapera, onde a rua da casa onde morava teve o nome trocado para Manoel Alves Ribeiro (Mimo). Também uma rua de Coqueiros, no Continente, recebeu o seu nome.

De acordo com a filha Glória Freyesleben, sua casa era frequentemente visitada ou adotada como moradia por estudantes, políticos perseguidos e líderes sindicais. “De vez em quando, ele nos pedia mais cobertores e travesseiros para abrigar tanta gente”, conta ela. Às vezes, essas pessoas espalhavam barracas no quintal do terreno para se manter enquanto estudavam em Florianópolis. Manoel Ribeiro tinha o reconhecimento de seus eleitores, muitos deles do Morro do Céu, e era ouvido por Paulo Wright e Doutel de Andrade, líder do trabalhismo no Estado, com os quais constituiu chapa para a eleição de 1958.

“Me arrependo de não ter tido mais contato com ele e abraçado suas causas, porque casei e fui morar no interior”, diz a filha. “Era um homem muito solidário, carismático, despojado de vaidades, que lia os grandes filósofos, pensava sempre no coletivo e nunca procurou nos influenciar com suas ideias”, conta Glória. Quando questionado sobre as razões de receber um oponente ou político conservador em sua casa, dizia: “Minha filha, ele é boa pessoa, só está equivocado”.

No fim da vida, ainda se dedicou ao Icasp (Instituto Cultural de Amizade e Solidariedade aos Povos), fundado em 1985 e que fazia um trabalho em favor de populações de países da América Central e Caribe. Na contracapa do livro “Caminho”, seu Mimo escreveu:

“Possuo apenas as vestes que me cobrem a pele, mas tenho a certeza e a honra de ter lutado por uma ideia, tenho a admiração, o carinho e o respeito de meus familiares, a solidariedade confortante de meus amigos, meus companheiros e meus grandes camaradas. Por isso sou feliz, muito feliz”.

 

Acervo tem lista de 694 presos políticos

Acervo da Ditadura é o nome que batiza o amplo material doado no final de junho pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), vinculado à Faed/Udesc, em Florianópolis. Ali estão documentos sobre os catarinenses presos, mortos e desaparecidos durante o governo militar (1964-1985), dossiês, recortes de jornais, gravações de som e vídeo, fotografias, folders, folhetos, cartazes, artigos, correspondências, biografias, relatórios, processos, filmes, livros e revistas com reportagens sobre o tema.

Também pode ser acessada a lista de 694 políticos catarinenses presos durante a ditadura militar, com especificações sobre as atividades profissionais que desenvolviam à época e a cidade de origem. Foi com base nesse material que o Notícias do Dia realizou a série de reportagens que termina na presente edição, agregado de algumas entrevistas com membros da Comissão Estadual da Verdade, do próprio coletivo e familiares das vítimas. O Acervo da Ditadura pode ser acessado no site www.faed.udesc.br.

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