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Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

Konder Reis, uma trajetória única em Santa Catarina

O político assumiu seu primeiro cargo público em 1947. Em 50 anos, testemunhou e participou de fatos históricos  estaduais e nacionais

Carlos Damião
13/06/2018 11h54

 

Em 1976, durante ato administrativo em seu gabinete - Acervo Carlos Damião
Em 1976, durante ato administrativo em seu gabinete - Acervo Carlos Damião


O ex-governador Antônio Carlos Konder Reis  comemorou, em 25 de março de 1997, 50 anos de dedicação à vida pública. Foi nesta data, em 1947, que o jovem Antônio Carlos, então com 21 anos, assumia seu primeiro mandato eletivo, de deputado estadual constituinte, na Assembleia Legislativa catarinense.

Cinquenta anos significaram para o político catarinense uma vida de dedicação às causas públicas, em diferentes momentos históricos do Estado ou do País. Konder Reis pôde acompanhar, por exemplo, a derrocada do Estado Novo, engajando-se no movimento pela redemocratização que resultou, em 1945, na criação do partido que representou sua maior escola política, a UDN (União Democrática Nacional).

Outro momento político importante, que Konder Reis acompanhou de perto no Congresso Nacional, foi o desastrado governo de Jânio Quadros, que acabou com a renúncia do presidente, no dia 25 de agosto de 1961. Quadros ficou apenas sete meses no cargo.

Três anos depois, o político catarinense testemunharia de perto mais um momento delicado da História nacional, o desmoronamento do governo de João Goulart, que seria deposto por um golpe civil-militar em 1 de abril de 1964.

Deputado estadual e federal, depois senador, Konder Reis identificou-se com o novo regime, filiando-se ao partido que sucederia a UDN (e o PSD), a Arena (Aliança Renovadora Nacional), em 1966. Por pertencer à Arena – e por ter trânsito livre no Congresso Nacional – o catarinense foi escolhido, em 1967, para ser o relator da nova Constituição brasileira.

Oito anos depois foi eleito pela via indireta (colégio eleitoral da Assembleia Legislativa) para governar Santa Catarina pela primeira vez, realizando uma administração voltada ao desenvolvimento e à modernização do Estado, cujo lema era “governar é encurtar distâncias”.

Ao fim de seu governo, afastou-se das atividades políticas para dedicar-se apenas ao trabalho na advocacia, em seu escritório no Rio de Janeiro. Mas voltou ao Estado em 1983, para ocupar o cargo de secretário extraordinário da Reconstrução de Santa Catarina, pasta criada pelo então governador Esperidião Amin para tratar da recuperação das cidades atingidas pelas cheias daquele ano. Em 1986 foi eleito deputado federal constituinte, atuando na Assembleia Nacional Constituinte – entre 1987 e 1988 – como relator-adjunto.

Em 1990, elegeu-se vice-governador na chapa da União Por Santa Catarina (PFL-PDS), assumindo o governo pela segunda vez em 1994, porque o titular, Vilson Kleinübing, afastou-se para disputar uma vaga ao Senado.

Nesta entrevista, concedida ao jornalista Carlos Damião no dia 12 de março de 1997, no escritório da empresa Dalçoquio, em Itajaí, Konder Reis relembra sua carreira pública, ao mesmo tempo em que oferece uma análise minuciosa da história política do país desde o início do século 20. A entrevista foi publicada em caderno especial do jornal O Estado, de 25 de março de 1997.

O político Conta como foi escolhido relator da Constituição de 1967, os bastidores de sua eleição para cgovernador no regime militar, seu relacionamento com os generais, ao mesmo tempo em que explica as razões pelas quais deixou o PPB, em 1994, para filiar-se ao PFL.

Confessa seu amor a Santa Catarina e ao Brasil como a principal razão de tantos anos de dedicação à atividade política e dá um conselho aos mais jovens, que estão começando na política: sejam leais. 

 

O Estado - O senhor começou na vida pública em 1947 e pôde acompanhar as grandes alterações da vida pública nacional desde então. Quais são as suas impressões desse período de 50 anos de política?

Antônio Carlos Konder Reis - Em primeiro lugar, devo dizer que não comecei na vida política exatamente em 1947. Desde 1945 eu já atuava - primeiro, no meio estudantil, depois no meio político propriamente dito, participando da organização da União Democrática Nacional (UDN), aqui em Santa Catarina, participando da eleição presidencial, que foi no dia 2 de dezembro de 1945. Então, eu já estava integrado em um dos grupos, que apoiava o brigadeiro Eduardo Gomes. De 1945 até a data de hoje foram muitas as alterações na vida pública brasileira. Nós tivemos em 1945 a queda do presidente Vargas. O presidente, apesar de ter uma grande popularidade, não teve como contornar a pressão que sofreu com a volta dos pracinhas brasileiros da Itália. Houve uma manifestação maciça favorável ao restabelecimento das franquias democráticas. Nós estávamos então vivendo o Estado Novo, que tinha sido implantado pelo golpe de estado de 10 de novembro de 1937 e com a outorga de uma Constituição.  Essa pressão começou com uma grande entrevista concedida ao Correio da Manhã pelo senhor José Américo de Almeida, que tinha sido ministro e governador da Paraíba. Os outros grupos que se opunham ao Estado Novo também se mobilizaram, principalmente nos meios de comunicação, e o presidente Vargas decidiu convocar eleições gerais. Mas quando chegou em outubro, em razão da substituição do chefe de polícia do Rio de Janeiro, as Forças Armadas sentiram que aquilo seria uma manobra continuísta e o senhor Getúlio Vargas, pressionado, renunciou. Como naquele tempo não havia vice-presidente da República, porque a Constituição de 1937 não previa a eleição de vice, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares, assumiu a presidência. Essa foi a primeira modificação, que eu vivi ainda como estudante da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

 

Jânio Quadros e Jango Goulart

O Estado - Qual foi a segunda grande modificação que marcou a vida brasileira desde então?

Konder Reis - Foi, sem dúvida, a eleição do senhor Jânio Quadros, com uma votação espetacular; um homem de temperamento singular, pertencente a um partido político pequeno (PDC), conseguiu empolgar a opinião pública brasileira, apesar de o senhor Juscelino Kubitscheck, que foi seu antecessor, ter realizado um governo muito vivo, com muitas realizações. Apesar disso, o senhor Jânio Quadros conseguiu suplantar todas essas realidades e se fez presidente da República. Pelo seu temperamento, e pelo fato de não ter maioria no Congresso, o governo durou sete meses e não chegou a se desenvolver normalmente. Em 24 de agosto de 1961, ele renunciou. Foi o segundo grande fato que mudou o quadro político brasileiro, de uma maneira instantânea e muito profunda.

O Estado - E o terceiro momento importante da História desses 50 anos?

Konder Reis - O desmoronamento do governo João Goulart. Jânio Quadros renunciou - e assumiu o vice-presidente da Câmara, que, segundo a Constituição era e é o segundo vice-presidente da República. Houve uma reação de um grupo das Forças Armadas à posse do senhor Goulart, que estava no dia da renúncia na China. Abriu-se uma crise institucional muito séria, até que se encontrou uma fórmula para que não houvesse golpe de Estado ou uma guerra civil: alterar a Constituição, instituir um sistema de governo parlamentarista e empossar o senhor João Goulart neste quadro.

O Estado - Em qual desses momentos históricos o senhor, como parlamentar, participou mais ativamente?

Konder Reis - Eu não participei ativamente de nenhum deles.

O Estado - O senhor não se integrou ao movimento de 1964, que derrubou João Goulart?

Konder Reis - Eu apoiei a mudança do quadro. Mas não conspirei. Eu estava na véspera de 31 de março lançando a minha candidatura a governador na cidade de Rio do Sul. Uma prova evidente de que eu não estava participando ativamente de nenhuma ação política para mudar o quadro. Sentia que havia a necessidade. E o governo do senhor João Goulart não foi derrubado - ele desmoronou, por falta de autoridade, de comando político.

 

UDN, a primeira escola de política

O Estado - O senhor foi fundador da UDN, participou do processo de estruturação do partido em Santa Catarina...

Konder Reis - Fundador, propriamente, eu não fui, porque eu era estudante à época.

O Estado - Mas qual a importância do partido para a sua vida? Foi a UDN que forjou o político Antônio Carlos Konder Reis?

Konder Reis - Eu diria que já tinha uma vocação pela vida pública e foi, através da UDN, que dei os primeiros passos na vida pública. Portanto, a função da UDN foi muito importante. Foi minha primeira escola de política.

O Estado - O senhor lamentou, em 1966, a extinção da UDN e consequente criação da Arena?

Konder Reis - Eu fui o último senador a assinar o manifesto de criação do partido. Só assinei em fins de fevereiro. Naturalmente, não participei do processo de organização da Arena. Mas depois me integrei ao partido.

O Estado - A UDN, como o PSD, era um partido que tinha uma, digamos assim, legião de devotos, de fiéis seguidores. Comparativamente com os anos 90, que modificações o senhor vê nesse aspecto: os partidos hoje não despertam nas pessoas aquela paixão dos anos 40, 50, 60?

Konder Reis - No meu ponto de vista, essa mudança no quadro é consequência da mudança do quadro da sociedade brasileira. Em 1930, com a Revolução, também foram extintos os partidos. Em 1934, o presidente Getúlio Vargas convocou a Assembleia Nacional Constituinte e os partidos se organizaram. Mas até aí os partidos eram estaduais, havia o Partido Republicano do Rio Grande do Sul, o catarinense, o paulista. A política era feita através desses núcleos. O partido tinha abrangência nacional, mas tinha autonomia em cada estado. Eram o Partido Republicano e o Partido Liberal - que existia em alguns Estados. Esse Partido Liberal, no episódio da Revolução de 30, se mobilizou e constituiu a Aliança Liberal, para disputar a eleição daquele ano. Pelo Republicano, Júlio Prestes, e pela Aliança, Getúlio Vargas - que era do Republicano, mas houve uma dissidência, quando ele era governador do Rio Grande do Sul (pouco antes tinha sido ministro da Fazenda do presidente Washington Luís). Singularmente, o presidente escolhido pela Revolução tinha sido ministro do seu antecessor e deixou o ministério para ser governador do Rio Grande do Sul. Com apoio do presidente Washington Luís, que era do Partido Republicano. E o senhor Vargas passou para a Aliança.

Como funcionava mais a política em torno dos partidos, havia então maior interesse, não havia dispersão de forças. O Partido Republicano era realmente um partido que tinha tradição, entusiasmo, havia disciplina, que não era imposta, e o partido que disputava com o Republicano também adquiria esses atributos. Na maioria das sucessões presidenciais antes de 30 o Republicano não se dividiu a ponto de a dissidência ter um candidato. O primeiro que surgiu foi Nilo Peçanha, contra Afonso Penna. Depois, em 1910, o candidato do Partido Republicano era Hermes da Fonseca e surgiram movimentos em favor da candidatura do senhor Getúlio Vargas. Movimentos de pessoas que participavam do Partido Republicano, na maioria das vezes, e então formaram uma dissidência de dimensão nacional e houve uma grande eleição no Brasil, que foi a do Civilismo, mas ganhou Hermes da Fonseca.

 Depois tivemos a sucessão de Delfim Moreira, do Artur Bernardes, que foram relativamente tranquilas, do ponto de vista da unidade partidária. Até que em 1930 houve um rompimento maior, de grande profundidade, quando se criou a aliança Liberal e o dr. Getúlio Vargas disputou essa eleição.

O Estado - Em 1930, então, houve a extinção desses partidos...

Konder Reis - Até 1934, o país ficou sem partidos. Nesse ano, o dr. Getúlio Vargas convocou uma eleição para a Assembleia Nacional Constituinte. Então, aquelas forças que estavam dispostas até 1930 se reaglutinaram e voltou o clima de antes de 30. Houve o mesmo entusiasmo, a mesma confiança. Em 1934, com o final da Assembleia Nacional Constituinte, em 16 de julho, começamos uma nova vida partidária. Ainda havia uma grande influência daquele bipartidarismo de fato, com forte sentimento maniqueísta. Tudo que é bom está aqui. Tudo que é ruim está lá. Houve, então, a eleição, pela Assembleia, do senhor Getúlio Vargas para a presidência. Mal começou seu mandato, surgiram no Brasil uma série de forças extremistas. Houve a sedição em Natal; a insurreição integralista no Rio de Janeiro. Enfim, mudou o quadro em função do reflexo da política internacional na politica brasileira. Surgiram, de fato, o Partido Comunista (que já funcionava desde 1922, mas aquietado), o Partido Integralista, fundado pro Plínio Salgado, e a coisa estava se encaminhando para que continuássemos naquele bipartidarismo de fato, naquele entusiasmo, fervor , naquele espírito de lealdade.

Mas em 1937, candidatos à presidência da República já estavam escolhidos: o candidato pelo partido tradicional, o Republicano, era o senhor José Américo; criou-se em São Paulo outro partido, o Democrático, com ramificação em quase todos os estados - cujo candidato era o senhor Armando Salles de Oliveira. Mas a eleição não aconteceu, porque em 10 de novembro de 1937 o senhor Getúlio Vargas presidiu um golpe de Estado, derrubou a Constituição de 1934 e outorgou uma nova. E ficamos assim até 1945, quando o senhor Getúlio cedeu à pressão da opinião pública e convocou eleições. Nessas eleições de 1945 ainda funcionaram aqueles esquemas anteriores, ainda havia de fato um bipartidarismo, quem era Republicano era republicano, quem era liberal era liberal. Durante o período de Estado Novo, esses laços foram se afrouxando, se enfraquecendo.  Houve um grande esforço para que na reconstituição da política brasileira houvesse duas forças, uma de oposição e outra de governo. Por isso foram criados a UDN, pelo grupo que se opôs ao Estado Novo, e o PSD, que foi organizado pelos interventores que Getúlio Vargas havia nomeado, sob a coordenação do senhor Benedito Valadares.

Mas o quadro não ficou nesse estágio. Surgiram mais partidos, o Comunista, o Integralista (Partido de Representação Popular), o Republicano, que foi revivido pelo ex-presidente da República Artur Bernardes, e começou então um processo de dispersão, inspirado pelo desenvolvimento brasileiro. A Segunda Guerra mudou não só o quadro econômico do mundo, mudou também o quadro social. Houve modificação do ponto de vista sociológico na sociedade brasileira e não foi possível manter apenas dois partidos. A tendência foi a multiplicação desses partidos.

Com a crise de 1964, da qual resultou a eleição pelo Congresso do senhor Humberto de Alencar Castello Branco, o quadro político brasileiro já estava completamente disperso. Eram 14 partidos. Aí foi difícil se restabelecer uma fórmula de bons efeitos. Em 1988, durante a Assembleia Nacional Constituinte, houve várias propostas para se reduzir um pouco a possibilidade de se criar partidos. Mas a tese não foi vitoriosa. A Constituição tem um capítulo sobre partidos políticos, mas é muito liberal quanto à fundação de novos partidos. Em 1967, quando relatei a Constituição, encontrei dificuldades. Por exemplo: princípio da fidelidade partidária. Foi muito difícil levar esse princípio às suas dimensões reais, capazes de atender as necessidades brasileiras. Todo esse quadro - que é o quadro da atividade das cúpulas - se refletiu no eleitorado. Então hoje os partidos não têm aquela firmeza, aquela coesão, que havia nos partidos anteriores.

 

Atitude e compreensão em relação a 1964

 

O Estado - O senhor considera a reforma política - e a fidelidade partidária incluída - fundamental para que o país volte a ter partidos fortes?

Konder Reis - Sem dúvida nenhuma.

O Estado - O senhor foi governador pela primeira vez num período muito difícil da História nacional, em que predominava um regime autoritário. Como o senhor, com a sua formação humanista e temperamento de tolerância, conviveu com esse clima difícil?

Konder Reis - Eu procurei manter uma atitude fiel à minha compreensão do fenômeno 1964. Em janeiro de 1964, fiz um discurso no Senado, e concluía, pedindo licença e desculpas ao presidente da República, pela ousadia, para que ele considerasse o problema da ordem no Brasil. Porque na desordem ele seria o primeiro a ser atingido. Mas evidentemente que o discurso perdeu-se nos anais do Senado. Essa era a minha opinião, eu estava vivendo o problema político, estava cumprindo meu dever, estava viajando pelo interior de Santa Catarina. Evidentemente que esses fatos todos se refletiram na minha maneira de ver o Movimento de 1964. Eu era deputado, em seguida houve uma eleição (1965), me candidatei a governador, perdi a eleição. Aqui em Santa Catarina ainda não havia se verificado a mudança do quadro político, porque a Revolução - ou Movimento que decorreu do desmoronamento do Governo João Goulart - não mudou logo os partidos. Os partidos continuaram. Só em outubro de 1965, com o Ato Institucional número 2, é que houve a modificação. Mas como a eleição para governador foi em 7 de outubro de 1965, o quadro já era outro. Já havia a aglutinação, com uma tentativa de se estabelecer no Brasil o bipartidarismo, que não funcionou. Aqui em Santa Catarina, como a modificação do quadro partidário se deu ao fim de outubro e a eleição foi no princípio do mesmo mês, ainda disputei a eleição sob a legenda da UDN. Dias depois, é que houve a crise e os partidos foram suprimidos. Perdi a eleição, voltei para o Senado, e em 1970 disputei a reeleição para o Senado, com sucesso. 

Eleições indiretas

Naquele ano, meu nome foi lembrado para governador; embora as eleições tivessem sido alteradas, por força do AI-2, mas os candidatos eram escolhidos, pela via partidária, e havia um clima de fidelidade, de entusiasmo, de coesão. Mas o presidente da República conversou com as lideranças - e eu estava na reunião no Palácio do Planalto - e chegou à conclusão de que o nome deveria ser o do senhor Colombo Machado Salles, que foi o eleito.

Há no Brasil uma distorção nos meios de comunicação, quando chamam esses governadores de nomeados. Não foram nomeados. Foram eleitos pela via indireta. Como o dr. Nereu Ramos foi eleito pela via indireta no dia 1. de maio de 1935, como o dr. Getúlio foi eleito presidente pela via indireta - pela Assembleia Nacional Constituinte, em 1934.

Na sucessão do dr. Colombo Salles houve uma disputa muito grande para ser candidato a governador. Evidentemente, como o regime era autoritário - aí eu também sempre faço uma correção: no Brasil, de 1964 a 1985, não houve uma ditadura; ditadura, segundo Aristóteles, é o governo de um só. Não houve um governo de um só; na ditadura não há eleição, no Brasil houve, diretas e indiretas. Nesse regime autoritário, o presidente da República opinava quando da sucessão nos estados, indicava nomes, conversava com os dirigentes do partido, a Arena - maioria em quase todos os estados - e dessa conversação, desse esforço para se encontrar um termo de bom entendimento, o meu nome foi indicado. E eu fui eleito pela Assembleia Legislativa no dia 3 de outubro de 1974, assumindo o governo em 1975. Nunca sofri nenhum tipo de pressão do presidente Ernesto Geisel. Agi com toda independência. Mesmo antes de assumir o governo, quando preparava o primeiro escalão do governo, recebi um telefonema do ministro Armando Falcão, dizendo-me que o presidente da República pedia-me para considerar a hipótese de, na escolha do secretário da Segurança Pública e do comandante da Policia Militar, eu ouvisse o comandante do III Exército, general Oscar Luís da Silva. Eu disse ao ministro: “Posso conversar com ele, mas já escolhi. Tanto o secretário da Segurança quanto o comandante”. O general estava veraneando nas Termas do Gravatal, repousando, quando telefonei e marquei audiência. Ele me perguntou sobre os dois cargos. E eu lhe respondi: “Posso fazer a declinação dos nomes escolhidos. O da Segurança Pública, coronel Ari Oliveira, que foi prefeito da capital, superintendente da Sunab, foi do gabinete do ministro da Guerra. Queria escolher alguém entrosado à política catarinense e também um militar, que é conveniente que seja”. Dei os mesmos esclarecimentos sobre o comandante da Polícia Militar. Escolhi o então coronel Dória, que era comandante do batalhão em Blumenau. O coronel Ari Oliveira ficou até o final do meu governo, devo muitos favores a ele.

O Estado - O senhor não teve nenhum problema com o regime durante seu governo?

Konder Reis - Só tive um problema que foi a Operação Barriga Verde, da responsabilidade do Governo da União, feita pelo Exército, sob a orientação do comandante da 5a. Região Militar. [Nota do colunista: a operação, em 1975, foi organizada pelas forças de repressão e prendeu militantes do PCB – Partido Comunista Brasileiro -, então na clandestinidade. Alguns dos presos foram barbaramente torturados. Na entrevista, Konder Reis não quis se estender sobre o assunto porque, como ele mesmo disse, as forças de segurança do Estado estavam subordinadas ao Exército].

 

Recebendo o  engenheiro Antônio Carlos Werner, diretor do DER (Departamento de Estradas de Rodagem).  - Acervo Carlos Damião
Recebendo o engenheiro Antônio Carlos Werner, diretor do DER (Departamento de Estradas de Rodagem). - Acervo Carlos Damião


Encurtando distâncias

O Estado - O que o senhor destacaria do seu período de governo, que foi marcantemente desenvolvimentista, em Santa Catarina?

Konder Reis - Meu programa de governo tinha como lema “Governar é encurtar distâncias”. Distâncias materiais, sociais, econômicas, e assim por diante. No primeiro contato que tive com o presidente, antes de assumir, pedi três financiamentos externos - um para estradas; outro, para o ensino; e o terceiro, para saúde. Assim, encurtaria as distâncias materiais, de ordem cultural e também as do setor da saúde, dando atenção a um maior número possível de catarinenses. O presidente examinou e deferiu, pelo antigo FAS, gerido pela Caixa Econômica Federal, os recursos necessários à educação. Nós construímos os campi universitários, as fundações educacionais do interior, com exceção de Blumenau, que já estava construída, construímos o novo prédio da Faculdade de Engenharia de Joinville, e atendemos também o ensino de primeiro e segundo grau, construindo escolas. No setor de estradas, construímos cerca de 850 quilômetros de estradas pavimentadas, com asfalto até a fronteira com a Argentina.

O Estado - O maior impulso rodoviário do estado foi no seu governo?

Konder Reis - Sim. E nos setor da saúde construímos alguns hospitais de referência. Em Florianópolis nós construímos o Infantil e o de Trânsito - na Rua Major Costa -; o de Curitibanos, iniciamos o de Jaraguá e atendemos a toda a rede hospitalar da melhor maneira possível. Não fizemos nenhuma obra espetacular. Mas tocamos nos setores que julgávamos mais importantes para Santa Catarina. 

Uma pausa na política e a volta à atividade

O Estado - Depois que o senhor deixou o governo, o senhor se recolheu, deixou a política por um tempo...

Konder Reis - Não, eu fui trabalhar, né? Fui morar no Rio, onde trabalhava - e São Paulo também.

O Estado - O senhor só voltou a se candidatar em 1986. Houve um intervalo muito grande na sua vida política.

Konder Reis - Foi de 1979 a 1983; em 1983, em função das enchentes que houve em Santa Catarina, fui secretário da Reconstrução - na administração de Esperidião Amin.

O Estado - Por que o senhor resolveu se candidatar a constituinte, em 1986?

Kodner Reis - Eu fui secretário de Estado de 1983 a 1986 e os amigos que sempre me apoiaram lembraram meu nome e achei que era o momento de dar uma contribuição, uma vez que eu fui relator da Constituição de 1967 e fui relator-adjunto da Constituição de 1988.

 A experiência como relator constitucional

O Estado - Em 1967 o senhor foi relator da Constituição do regime autoritário. Em 1988, o senhor foi relator adjunto da chamada Cosntituição Cidadã. Como é que o senhor compararia esses dois momentos?

Konder Reis - Na Constituição de 1967 fui escolhido relator pelo meu trânsito no Congresso. Fui duas vezes deputado federal e senador - eu era o mais moço, à época. Isso aconteceu em meados de novembro de 1966. Diante daquela perspectiva, comecei a me preparar, estudar, uma vez que o prazo para apresentação do relatório preliminar do projeto era curto. O Congresso foi convocado no dia 12 de dezembro e o prazo era até 24 de janeiro. Nossa primeira atividade depois da eleição da comissão e direção era dar um parecer global sobre o projeto. E eu, pelo fato de ter estudado, fiz um parecer razoável e isso fortaleceu muito a minha posição. A oposição (MDB), que inicialmente queria se abster de participar, diante desse relatório mudou de atitude.  Depois disso entraram para a comissão Ulysses Guimarães, Martinho Rodrigues. Num primeiro momento havia certa aversão, mesmo dentro da Arena, mas isso mudou. Tive a oportunidade então de fazer uma Constituição num período difícil, de carência, carência de tempo, de liberdade, pois estávamos num regime autoritário.

O Estado - O senhor enfrentou dificuldades em 1988? Houve problemas de aceitação?

Konder Reis - Em 1987, quando tomei posse como deputado federal constituinte, a posição, a atitude, o pré-julgamento da minha presença na Assembleia Nacional Constituinte era por muitos de reserva porque eu tinha sido relator-geral da Constituição de 1967, e como o clima era de disputa, era considerada uma Constituição autoritária, mal-feita.

À medida que o trabalho foi se desenvolvendo, havia o primeiro esquema que o deputado Bernardo Cabral organizou, uma relatoria geral, uma sub-relatoria (composta só por membros do PMDB) e um grupo de relatores auxiliares, com representantes de todas as correntes. Isso funcionou razoavelmente.

A Assembleia Nacional Constituinte encontrou uma grande dificuldade, porque não havia um projeto, como nas outras. Em 1934, a Comissão do Itamaraty elaborou um projeto para submeter à Assembleia. O mesmo ocorreu em 1889. A falta desse projeto tornou o nosso trabalho muito penoso e como eu, anteriormente, quando era deputado e senador, tinha amizade com o relator Bernardo Cabral, ele entendeu de vencer resistências e me designar um dos relatores auxiliares. A Assembleia funcionou com oito subcomissões, cada uma dividida em três auxiliares. Essas subcomissões elaboraram os anteprojetos e esse documento foi à Comissão de Sistematização. Quando começamos a trabalhar nessa comissão, Bernardo Cabral escolheu apenas três relatores adjuntos, José Fogaça, o ex-deputado Adolfo Oliveira e eu. Aí já não havia mais reservas, restrições, desconfianças e a gente pôde fazer o trabalho sob o comando do então deputado Bernardo Cabral da melhor maneira possível. 

Segundo período de governo

O Estado - Passada a Constituinte, o senhor voltou à atividade política em 1990, como candidato a vice- governador na chapa de Vilson Kleinübing (PFL). Com a saída do titular para disputar uma vaga ao Senado em 1994, o senhor voltou a governar o Estado por um curto período, deixando marcas do seu estilo. O que o senhor destacaria como mais importante daqueles nove meses de administração?

Konder Reis - Nós procuramos prosseguir as obras e serviços que estavam se desenvolvendo. Essa foi a nossa primeira preocupação: manter a continuidade. E dar ao governo condições de desenvolver o seu trabalho dentro de um estilo que eu tinha implantado em 1975. Primeiro, a unidade do governo.

O Estado - A austeridade não era uma das marcas?

Konder Reis - Austeridade foi um princípio que usei anteriormente e continuei obedecendo a esse princípio, quando da escolha dos meus secretários. Primeiro ponto, austeridade. Depois, outros atributos que ia examinando. O importante foi que se criou um espírito de equipe, apesar de tudo indicar que esse espírito de equipe não fosse funcionar, em razão do racha da União Por Santa Catarina. Mas funcionou. Os secretários de Estado opinaram livremente, se inclinaram para uma ou outra candidatura da União por Santa Catarina e eu apenas quando manifestei o meu apoio ao dr. Jorge Konder Bornhausen, logo depois que tomei conhecimento daquele célebre Compromisso de Chapecó, com o qual eu não concordei.  Mesmo depois da minha posição clara em favor da candidatura do dr. Jorge o Colegiado recebeu a recomendação de que, se quisessem seguiriam a orientação do governador. Se não pudessem, ou não quisessem, não usariam o status de secretário na campanha, contra o candidato do governador. Isso funcionou: não precisei tomar nenhuma medida de maior severidade , mas foi muito difícil, um período extremamente difícil para mim.

Na parte material mantivemos os serviços em andamento. Assinei a Ordem de Serviço para a Via Expressa Sul, para a duplicação da SC-401, e prosseguimos as obras da 470 entre Blumenau e Navegantes - a obra não foi concluída por falta de recursos e eu não quis abrir exceção.

 A conturbada definição eleitoral de 1994

O Estado - O senhor rompeu com o PPB e Esperidião Amin por causa do episódio de Chapecó?

Konder Reis - Foi. No domingo de Passos de 1994 o governador Vilson Kleinübing convocou uma reunião. Ele presidiu a reunião, da qual participaram o senador Esperidião Amin, Jorge Konder Bornhausen e eu. Nessa reunião, depois de verificado que os partidos que compunham a União por Santa Catarina estavam no propósito de prosseguirem mantendo a coligação, o governador Vilson Kleinübing colocou à discussão o nome do candidato à sua sucessão. Logo o senador Esperidião Amin manifestou seu propósito de ser o candidato. O governador perguntou ao dr. Jorge se o PFL apoiava. O dr. Jorge declarou que o PFL apoiava o nome e passamos então a conversar sobre um nome para vice-governador. O PFL indicou o sr. Raimundo Colombo. E o senador Amin perguntou: “Mesmo eu sendo candidato a governador, ele aceita ser candidato a vice?” O dr. Jorge respondeu: “Sim , aceita. Depois passamos ao exame do candidato a senador. O governador Vilson Kleinübing manifestou desejo de ser candidato. Veio então a pergunta se eu me dispunha a sucedê-lo. Eu respondi que sim - apesar de existirem duas vagas para o Senado: eu poderia ter me inclinado a disputar uma delas. Mas eu queria preservar a USC. Isso foi um domingo de Passos. Fui então ao Rio, conversar com minha irmã, para ela vir me ajudar, depois fui a São Paulo. Na volta , senti um ambiente um pouco estranho através das notícias dos jornais. Pedi então audiência ao governador. Ele me recebeu à tarde, no Domingo de Ramos, na Agronômica, quando manifestei a ele a conveniência de nós permanecermos nos cargos em que estávamos e a União Por Santa Catarina escolher outros candidatos. Ele disse que ia pensar na proposta e na segunda-feira ele manifestou seu propósito de ser candidato. Eu então me preparei para assumir o governo. O governador Kleinübing desejava que eu assumisse na Quinta-feira Santa, mas eu preferi o Sábado de Aleluia , quando assumi. Passada uma semana, o senador Esperidião Amin solicitou uma nova reunião, já então sob a minha presidência, porque eu estava no exercício do governo, e para espanto meu - e acredito, de meus companheiros - ele declarou que estava indeciso e precisava tomar uma decisão, porque estava calçando duas botas, de números e modelos diferentes. Foi a imagem que ele usou para dizer que era candidato a governador, depois da reunião do Domingo de Passos, e no momento em que admitia sua candidatura à Presidência da República. Eu, surpreendido, fiz um apelo muito grande para que ele continuasse candidato a governador, mas a posição dele não mudou. Os outros companheiros também fizeram o apelo. No sábado seguinte, foi ao Palácio me comunicar que ia lançar sua candidatura à Presidência da República. No final da conversa, no Palácio do Governo, eu disse que não ia ao lançamento. Veio a campanha, o PPR (depois PPB e PP) lançou a candidatura de dona Angela Amin e o PFL do dr. Jorge Konder Bornhausen. Fiz um esforço grande para ver se encontrávamos um candidato de consenso - e no fim de maio realizaram-se as convenções. Durante todo esse período, através das notas que levei ao Colegiado, minha posição foi de apoio às duas candidaturas. O pessoal mais próximo de mim no Palácio - que se manifestava a favor da candidatura de dona Angela, permaneceu trabalhando normalmente. Isso funcionou até meados de julho, quando eu me preparava para ir a Joinville para participar das festividades do centenário de Carlos Gomes de Oliveira. Aí então um secretário de Estado puxou do bolso um papel e perguntou-me se eu conhecia aquele documento - assinado em 29 de maio, “Compromisso de Chapecó”. Quando eu voltei, reuni o Colegiado e manifestei o meu apoio público ao dr. Jorge Konder Bornhausen.  E pedi então que todos os que quisessem me acompanhar apoiassem o dr. Jorge. Isso foi no dia 12 de setembro, em cima da eleição. Foi mais um gesto simbólico, de inconformidade, a meu ver muito justa, pelo fato de o governador não tomar conhecimento de uma providência tão importante e tão desastrada - a dona Angela perdeu em todos os municípios da região de Chapecó no segundo turno.

O Estado - Baseado na sua experiência de homem público, com 50 anos de vida dedicados à política, que mensagem o senhor deixaria para os jovens que estão iniciando atividades na vida pública?

Konder Reis - Aos jovens que estão iniciando a jornada agora, direi a que é muito importante, indispensável que tenham o atributo a lealdade. Em política este atributo é básico. E também não desprezem a necessidade de, a cada dia, adquirirem mais conhecimento para cumprirem as suas tarefas, seja no Executivo, no Legislativo, no Judiciário. Lealdade, amor ao trabalho e ao estudo e amor ao Brasil e a Santa Catarina.

 

 

Campeão de votos

Antônio Carlos Konder Reis disputou nove eleições (uma, na qualidade de candidato a vice) e perdeu apenas uma.

 

ELEIÇÕES DISPUTADAS

 

Ano                                       Cargo disputado                                Votação obtida                                  Partido

1947                                      Deputado estadual                                3.059                                                   UDN

1950                                      Deputado estadual                                4.743                                                   UDN

1954                                      Deputado federal                                    15.755                                                 UDN

1958                                      Deputado federal                                   39.174                                                  UDN

1962                                      Senador                                                275.226                                                      UDN

1965                                      Governador                                         305.090 (*)                                              UDN

1970                                      Senador                                                509.127                                                     Arena

1986                                      Deputado federal                              59.042                                                      PDS

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(*) Única eleição em que foi derrotado. O vencedor foi Ivo Silveira (PSD), com 328.480 votos

 

 

 

 

 

 

 

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