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Sábado, 18 de Agosto de 2018
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Comentários sobre cinema, séries, música, televisão e entretenimento. Você confere aqui o que vale a pena maratonar ou assistir na telona, assim como os destaques da playlist e os temas que despertaram o interesse de um entusiasta da cultura pop.

Gustavo Bruning é jornalista, repórter do Notícias do Dia, colecionador de filmes e fã incondicional do gênero terror.

Porque fazer uma maratona de filmes da Marvel com a sua mãe pode ser uma ótima experiência

Foram 18 filmes em um mês: da trilogia "Homem de Ferro" às histórias espaciais de "Guardiões da Galáxia", além de tramas com viés místico ou cômico, tais quais "Doutor Estranho" e "Homem-Formiga"

Gustavo Bruning

A palavra “marvel”, em português, pode ser traduzida como “maravilhar-se” ou “estranhar”. Foi uma combinação desses dois significados que vi despertar na minha mãe enquanto ela assistia comigo a uma maratona dos 18 filmes de super-heróis da Marvel Studios no último mês. Aos 61 anos, ela definitivamente não é o público-alvo desses longas-metragens. No entanto, vou descrever aqui porque ter assistido toda essa saga ao lado de alguém que jamais havia visto um filme do gênero pode ser uma experiência singular.

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16 dos 18 filmes da Marvel Studios lançados antes de "Vingadores: Guerra Infinita" - Gustavo Bruning/ND


Tudo começou quando planejei maratonar a franquia antes da estreia de “Vingadores: Guerra Infinita” e percebi que o desafio de rever os 18 filmes, diariamente, não era para qualquer um – nenhum amigo tinha interesse ou estamina para a missão. Isso é compreensível, já que eles totalizam 2.163 minutos – cerca de 36 horas. Essas produções incluem de trilogias de ação como “Homem de Ferro” a histórias espaciais como os dois “Guardiões da Galáxia”, além de obras cuja trama tem um viés místico, como “Doutor Estranho”, ou cômico, tal qual “Homem-Formiga”. Não, eles não são todos iguais.

Eu não desisti desse desafio, e ao apresentar a premissa do primeiro “Homem de Ferro”, lançado em 2008, para a minha mãe, ela topou embarcar nessa loucura. Adiamos a série que planejávamos acompanhar juntos – “O Mecanismo” pode esperar, certo? – e suspendemos os dramas de Natalie Portman e Morgan Freeman que provavelmente seriam assistidos na TV à cabo. E assim seguimos, em alguns casos pulando alguns dias entre os filmes, até este dia das mães, quando concluímos a aventura assistindo “Pantera Negra”, o último antes do terceiro “Vingadores”.

De certa forma, ver o MCU (Universo Cinematográfico da Marvel) ao lado dela foi um exercício de paciência para nós dois. Para mim, no sentido de compreender o ponto de vista de alguém que não está acostumado com esse estilo de narrativa – foi preciso explicar as ramificações das histórias (todos os filmes estão interligados e possuem personagens em comum), as passagens de tempo e as implicações das gemas do infinito. Para a minha mãe, a paciência foi sentar no sofá por duas horas e meia para aprender a levar um guaxinim falante a sério, a compreender o multiverso e a temer o reino quântico.

As diversas pausas durante as exibições foram mais do que necessárias, e permitiram não apenas explicações sobre causas e consequência dos eventos das tramas, mas a abertura de diálogos sobre decisões e motivações de personagens. No fim das contas, por mais que esses filmes estejam tomados por batalhas explosivas, robôs de computação gráfica e figurinos extravagantes, eles tratam de questões humanas e sociais básicas.

O Homem de Ferro é um milionário excêntrico que desiste de fabricar armas para lutar pela paz, mas lida com a necessidade de proteger quem ama e cria armaduras com poderes igualmente perigosos. O Capitão América sofre ao se tornar uma marionete do governo durante a Segunda Guerra Mundial, e em outra ocasião sofre com as consequências de ter ficado congelado por 70 anos e não confiar mais em organizações de segurança. O doutor Stephen Strange é um médico cético que acaba encontrando a cura para o seu problema na compreensão do plano astral. Enquanto isso, Peter Parker, o Homem-Aranha, sofre com questões de responsabilidade e confiança, e Peter Quill, o Senhor das Estrelas, supera questões familiares não resolvidas ao encontrar uma nova família. Até os vilões – de Loki a Zemo – têm motivações claras e com respaldos, o que incitam a discussão sobre até onde vai a luta pelo que se acredita ser certo.

Além disso, é divertido ver essa espectadora incomum caçando as aparições de Stan Lee em todos os filmes e expressando choque quando o Thor aparece de cabelo curto – mais do que quando Nova York é destruída por um exército de alienígenas. Testemunhar a representatividade – e as habilidades – de heroínas em meio a um grupo formado basicamente por homens também é um bônus. O melhor, ainda assim, é a preocupação com os heróis. Afinal de contas, atravessar o arame farpado durante o treinamento de Steve Rogers no exército pode ser derradeiro, não é?

Apesar das risadas e reações de surpresa que a vi expressar em “Homem-Formiga” e do interesse pelo caráter conspiratório retratado em “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, foi a simplicidade de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” que a conquistou. Mesmo que este não vá figurar entre os filmes favoritos dela, que incluem “Love Story - Uma História de Amo” e “Doutor Jivago”, cumpre a uma das funções primordiais do entretenimento. Você não precisa ser exclusivamente cult ou venerar o antigo cegamente: há espaço para tudo.

A lição que pode ser tomada com essa maratona de 18 filmes é que pode ser extremamente prazeroso assistir algo com uma pessoa que está fora de sua zona de conforto. Esses longas-metragens ganham novas camadas e você pode ter a chance de revigorizar a sua relação com alguém de uma forma inédita. Eu não saí da minha zona de conforto nesta ocasião, e, por mais que planejasse fazê-lo agora, não sei se isso vai acontecer tão cedo. Afinal de contas, minha mãe quer maratonar Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, Friends e Supernatural.

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