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Os deputados letrados e os candidatos que não sabem ler

A postura anacrônica, de quem deseja tudo, menos mexer no status quo, é perceptível nas palavras e nas manobras de muitos dos atuais deputados e senadores.

Paulo Clóvis Schmitz
25/10/2016 17h34

A leitura de um artigo na “Folha” de domingo me instigou a refletir sobre a qualidade de nossos representantes, sufragados ou não (porque suplentes, em muitos casos), nesses tempos eleitorais. A historiadora Mary Del Priore fez uma digressão à época dos proprietários de terra que exerciam forte influência no parlamento, conduzidos pelo voto de cabresto. Eram anos sem indústrias, sem grande comércio, sem serviços – a agricultura era o carro-chefe da economia nacional. E a linguagem tendia à fala conservadora, do senhor de escravos, do latifundiário.

Até que vieram os padres, médicos e magistrados, que azeitaram as casas legislativas, sem contudo avançar substancialmente nas ideias. Traziam o pensamento retrógrado das missas, diplomas amarelados de Coimbra e todo o arsenal do direito. A vantagem, apesar da parca vocação para transformar, era a erudição que permitiu avanços na legislação e adequou o país às necessidades da emancipação do jugo externo. E mais, eles falavam um português perfeito, ainda que empolado.

Depois, a Câmara dos Deputados foi ocupada por militares, juízes, jornalistas e desembargadores. Liam Rousseau e Montesquieu, mas quase sempre apoiavam a escravidão e defendiam os ideais da monarquia. Porém, mais uma vez, eram de um preparo intelectual invejável: basta tomarmos como exemplos Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e o visconde de Taunay. Os discursos citavam Camões, Cervantes e o padre Antonio Vieira, incluíam referências à filosofia e às ciências naturais, repetiam trechos de Voltaire e Victor Hugo.

Avançamos, de lá para cá? Depende do ponto de vista, porque a postura anacrônica, de quem deseja tudo, menos mexer no status quo, é perceptível nas palavras e nas manobras de muitos dos atuais deputados e senadores. O que piorou foi o estofo dos parlamentares, ou de quem quer se tornar um, porque parte deles mal consegue escrever o nome, não conhece nada além de sua aldeia e exibe crenças que pouco diferem das que vigoravam no período da inquisição.

Se é melhor ser comandado por doutores, gente com passagem pela Sorbonne, ou por homens e mulheres que mal sabem ler? Difícil dizer, pois o que vale são as intenções, a ética, o zelo com a coisa pública. Talvez um meio termo, nessa babel que é o Brasil, fosse o mais recomendável.

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